terça-feira, 17 de abril de 2012

A Mentira




A Psicologia e a Mentira

A mentira pode surgir por várias razões: receio das consequências (quando tememos que a verdade traga consequências negativas), insegurança ou baixa de auto-estima (quando pretendemos fazer passar uma imagem de nós mesmos melhor do que a que verdadeiramente acreditamos), por razões externas (quando o exterior nos pressiona ou por motivos de autoridade superior), por ganhos e regalias (se mentir trás ganhos vale a pena mentir já que ficamos em vantagem em relação aos que dizem a verdade) ou por razões patológicas.
Na infância mentimos para nos isentarmos das culpas. Muitas vezes os adolescentes descobrem que a mentira pode ser aceita em certas ocasiões, até isentá-lo de responsabilidade e ajudar a sua aceitação pelos colegas. Algumas crianças e adolescentes que geralmente agem de forma responsável, podem cair no vício de mentir repetidamente ao descobrir que as suas mentiras saciam a curiosidade dos pais. Para alguns pesquisadores, as crianças aprendem a necessidade de mentir (por exemplo: não demonstrar descontentamento com os presentes recebidos sob pena de não receberem mais) tão cedo quão mais inteligentes forem. Face à sua frequência, existe uma certa tendência para banalizar ou até catalogar a mentira como positiva - a "mentira branca" é considerada como uma forma de facilitar a integração na sociedade, e muitas vezes os que não a utilizam são catalogados como ingênuos -, mas não podemos nos esquecer que durante toda a história da humanidade a mentira causou muitos sofrimentos e fez derramar muitas lágrimas sobretudo quando projetada sob a forma de calúnia. Quando as crianças ou adolescentes mentem, os pais devem conseguir distinguir entre a realidade e a mentira e falar abertamente com eles sobre os aspectos pejorativo da mentira, e as vantagens que a verdade lhes trará. Em casa a criança deverá encontrar exemplos de verdade e honestidade que fomentem a sua atitude de sinceridade. Durante os primeiros anos as crianças não distinguem a realidade da fantasia, mas cedo começam a utilizar a mentira por proveito próprio. Sensivelmente por volta dos 7 anos as crianças já têm capacidade para distinguir claramente o verdadeiro do falso, e os adolescentes passam a conseguir discernir com relativa facilidade quem está mentindo ou sendo sincero. A mentira existe ao longo de toda a escala patológica. A saúde mental só é compatível com a verdade. Nos estados neuróticos, a mentira pode surgir com base numa incapacidade da consciência aceder a fatos recalcados e que se encontram no nosso inconsciente, ou por problemas de auto-estima e auto-imagem que despertem a necessidade de fazer passar uma auto-imagem melhor do que a que acreditamos ter. Nos estados limite, a mentira aparece frequentemente devido à falta de barreiras externas que balizem o comportamento. Esta situação surge frequentemente em filhos de pais muito repressivos ou demasiadamente permissivos. Nas psicoses, a mentira surge na forma de delírio, uma descrição que as próprias pessoas admitem como verdadeira, apesar do seu aspecto frequentemente bizarro, devido a uma quebra de contato com a realidade. A mentira pode ainda surgir como uma dependência, quando dita de uma forma compulsiva. Os dependentes da mentira sabem que estão mentindo, mas, não conseguem se controlar, num processo que surge de uma forma muito semelhante ao do vício do jogo ou à dependência de álcool ou de drogas. Esta incapacidade em controlar os impulsos é causadora de um sofrimento nítido razão pela qual deve ser alvo de tratamento. Nos dependentes da mentira, o primeiro passo a ser dado consiste em assumir que existe um problema e em seguida procurar ajuda para esse mesmo problema. Na abordagem terapêutica o tratamento passa geralmente pela realização de uma terapia psicológica. Nas provas psicológicas a mentira pode obviamente influenciar a validade dos resultados ou pela tendência do paciente em simular um desempenho superior ou inferior ao da realidade. Por estas razões, grande parte das provas psicológicas apresentam formas de controlar a veracidade das respostas que a partir da própria atitude do sujeito a analisar quer mesmo através de índices de consistência interna, teste-reteste ou confrontação com familiares e amigos próximos. Entre estas formas de dissimulação revela-se frequentemente também averiguar até que ponto as simulações surge de forma consciente ou inconsciente relativamente ao paciente.
O que fazer e não fazer?

É indiscutível que os pais e os educadores em geral são os principais modelos para as crianças, embora os outros elementos-chave da sociedade (ídolos, personagens televisivos, heróis) também tenham o seu efeito na formação dos valores e da personalidade. Se estes adultos de referência mentem (como tantas vezes acontece, basta relembrar o conhecido "diz que eu não estou" quando o telefone toca) e se não se dão ao trabalho de esclarecer porque o fizeram (ou de pedir desculpa por o ter feito quando a mentira não tem uma explicação cabal e lógica e quando não foi de alguma forma justificada), a criança habituar-se-á a que, afinal, mentir "não é tão errado como isso". Por outro lado, sempre que surge uma situação de mentira por parte da criança, e mesmo tomando em linha de conta as diversas razões que lhe estão na base e das quais mencionei algumas, os pais e educadores deverão ser rigorosos, mas compreensivos, e não deixar passar o caso sem debater os aspectos éticos da mentira, para além das conseqüências imediatas do fato.

Coluna No Divã - assinada pela Dra. Marisa Martins - Psicóloga - CRP: 06/30413-0
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