terça-feira, 7 de agosto de 2018

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Dois estudantes brasileiros conquistam ouro na Olimpíada Internacional de Química




Depois de colecionar medalhas de prata e bronze ao longo de décadas, o Brasil conquistou, pela primeira vez, medalhas de ouro na International Chemistry Olympiad (IChO). A 50ª edição do evento, que teve a participação de equipes de 76 países, foi realizada entre os dias 18 e 29 de julho em Bratislava, na Eslováquia e Praga, na República Tcheca.
Os quatro estudantes da delegação brasileira conquistaram medalhas. O paulista Vinícius Figueira Armelin e o cearense Ivan Ferreira Lima levaram ouro. João Victor Moreira Pimentel ficou com a prata e Orisvaldo Salviano Neto, com o bronze, ambos estudantes do Ceará.
Com esses resultados, somando a pontuação geral dos quatro estudantes brasileiros, o Brasil ficou na 12ª posição entre os 76 países (em 2017 esteve na 18ª).
Em julho, Armelin recebeu o Prêmio Talentos por ter vencido a Olimpíada de Química do Estado de São Paulo (OQSP-2018) e foi homenageado pela Abiquim durante o Encontro Anual da Indústria Química. 
Nas Olimpíadas de Química todos os competidores (no caso, 300) fazem dois exames, teórico (54 páginas) e prático (realizado individualmente em laboratório de química). A soma dos pontos nos dois exames determina a colocação de cada competidor na classificação geral. Os 10% do topo da lista recebem medalha de ouro; 20%, prata; 30% bronze.
Fonte: Agência Fapesp


Novo método mede hormônios do estresse no plasma sanguíneo

Novo método mede hormônios do estresse no plasma sanguíneo


Pessoas expostas ao estresse crônico costumam apresentar níveis sanguíneos elevados do hormônio cortisol, cujo papel é preparar o corpo para lidar com situações desafiadoras – aumentando a frequência cardíaca e os níveis de açúcar no sangue, por exemplo. Esse estado de alerta constante pode contribuir, ao longo do tempo, para o desenvolvimento de doenças metabólicas e psiquiátricas.
Entender a participação do cortisol e de um de seus principais metabólitos – o 11-DHC – no desenvolvimento de depressão é o objetivo de uma linha de pesquisa coordenada pela professora Lúcia Helena Faccioli, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP).
Para isso, o grupo desenvolveu um novo método baseado em espectrometria de massas para dosar com precisão no plasma sanguíneo de animais e de humanos o nível de seis diferentes hormônios esteroides: cortisol, cortisona, corticosterona, progesterona, aldosterona e 11-DHC.
“Todas essas substâncias são mediadores lipídicos envolvidos em diversas patologias, entre elas a depressão. Mas para entender como isso tudo é regulado precisávamos de uma metodologia mais simples e precisa para medir os níveis desses hormônios tanto no sangue como nos tecidos afetados”, disse Faccioli à Agência FAPESP.
Segundo a pesquisadora, atualmente, a forma mais comum de dosar os hormônios esteroides no plasma sanguíneo são os kits com reagentes capazes de reconhecer a substância de interesse. No entanto, para cada um dos hormônios é necessário um kit diferente, com o reagente específico.
“Não são raros os casos de reação cruzada com esse tipo de teste. Além disso, para o metabólito 11-DHC, que é um dos focos da nossa pesquisa, não havia nenhum método disponível para fazer a medição”, disse Faccioli.
Durante o pós-doutorado de Ana Paula Ferranti Peti, o grupo da USP desenvolveu, com apoio da FAPESP, uma técnica de monitoramento de reações múltiplas em alta resolução (MRM, na sigla em inglês) usando o espectrômetro de massas – equipamento capaz de separar e identificar substâncias com base no peso molecular.
“Nesta técnica, avaliamos como os compostos se comportam quimicamente e criamos uma forma de detecção na qual eles são reconhecidos pela sua massa e pela massa de uma porção da sua molécula [característica para cada um deles] após sofrer um processo de fragmentação. Assim, quando o equipamento reconhece a molécula íntegra e o seu fragmento, um sinal é registrado”, disse Peti.
Os resultados da pesquisa foram publicados no Journal of Mass Spectrometry, com destaque na capa da revista.
Marcador de estresse
Para validar a nova metodologia, o grupo realizou experimentos com uma linhagem de camundongos altamente suscetível ao estresse. Os animais foram submetidos a um protocolo muito usado em laboratório para criar uma condição de estresse crônico.
“A cada dia, ao longo de duas semanas, os roedores eram submetidos a uma situação adversa que variava, de forma imprevisível. Um dia ficavam sem comida, no outro ficavam sem água. Depois o ciclo de claro e escuro era invertido e, no dia seguinte, eram forçados a nadar durante alguns minutos”, disse Faccioli.
Como esperado, o teste de MRM revelou que o nível de corticosterona no plasma dos roedores submetidos ao protocolo estava 4,5 vezes maior que o do grupo controle, que não foi estressado, após 14 dias. Como explicou Faccioli, a corticosterona para os camundongos equivale ao cortisol para os humanos, ou seja, é um marcador de estresse.
Os níveis de 11-DHC, por outro lado, não foram alterados em resposta às situações adversas imprevisíveis.
“A vantagem do novo método é que além dos mediadores lipídicos de interesse para nossa pesquisa ele também quantifica outros hormônios esteroides presentes na mesma mostra. Essa ferramenta poderá ser usada por outros grupos interessados em estudar a influência desses mediadores em diversos tipos de doença e processos infecciosos”, disse Faccioli.
O artigo High-resolution multiple reaction monitoring method for quantification of steroidal hormones in plasma (doi: https://doi.org/10.1002/jms.4075), de Ana Paula Ferranti Peti, Gisele Aparecida Locachevic, Morgana Kelly Borges Prado, Luiz Alberto Beraldo de Moraes e Lúcia Helena Faccioli, pode ser lido em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/jms.4075
Fonte: Agência Fapesp

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

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Vanessa da Mata - Ai Ai Ai

Dieta pobre em proteína na gestação aumenta risco de câncer de próstata

Dieta pobre em proteína na gestação aumenta risco de câncer de próstata


Filhos de mães alimentadas com uma dieta pobre em proteínas durante o período de gestação e lactação correm risco consideravelmente maior de desenvolver câncer de próstata ao envelhecer.
Foi o que constatou um estudo feito com ratos no Instituto de Biociências (IBB) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu. Os resultados da pesquisa, apoiada pela FAPESP, foram divulgados no The Journals of Gerontology.
“Observamos em estudo anterior que a exposição intrauterina à dieta hipoproteica prejudica o desenvolvimento da próstata. Agora, comprovamos que esse efeito registrado no pós-natal aumenta a incidência de doenças prostáticas quando esses indivíduos envelhecem”, disse Luis Antonio Justulin Junior, professor do IBB-Unesp e coordenador do estudo.
O modelo usado no laboratório de Justulin consiste em alimentar fêmeas prenhes com uma ração contendo apenas 6% de proteína. O alimento normalmente oferecido a ratos de laboratório tem entre 17% e 23% desse nutriente. “Dados da literatura indicam que o porcentual mínimo necessário para a rata levar a gestação sem problemas é 12%”, disse Justulin.
As fêmeas prenhes incluídas na pesquisa foram divididas em três grupos. O controle recebeu a ração padrão, com pelo menos 17% de proteína, durante toda a gestação e 21 dias após o nascimento – período de lactação.
A partir do desmame, os filhotes também foram alimentados com a dieta padrão. Na avaliação feita quando a prole completou 540 dias de vida, quando já são considerados ratos velhos, os pesquisadores não observaram nenhum caso de tumor prostático.
O segundo grupo de fêmeas recebeu a ração com 6% de proteína durante a gestação apenas. Após o nascimento, passou a se alimentar com a dieta padrão, assim como os filhotes depois do desmame.
Na avaliação dos 540 dias, 33% dos descendentes machos haviam desenvolvido câncer de próstata. No grupo três, exposto à dieta hipoproteica durante todo o período de gestação e também de lactação, o índice de descendentes afetados por tumores na próstata foi de 50%.
“Fizemos a análise histopatológica nas glândulas desses animais e, em todos os grupos, encontramos alterações pré-neoplásicas que podem interferir na função glandular, como hiperplasia, atrofia epitelial e neoplasia interepitelial – esta última com potencial para se tornar um carcinoma, segundo dados da literatura científica. Mas somente nos animais expostos à dieta hipoproteica na vida intrauterina observamos o desenvolvimento do câncer propriamente dito”, disse Justulin à Agência FAPESP.
Desequilíbrio hormonal
Em trabalho anterior, publicado em 2017 na revista General and Comparative Endocrinology, o grupo do IBB-Unesp detalhou alguns dos prejuízos que a dieta hipoproteica materna induz na prole.
Análises feitas no décimo e no vigésimo primeiro dia após o nascimento mostraram que, nos filhotes de mães submetidas à restrição proteica, a próstata cresce menos e apresenta células epiteliais menos diferenciadas – características que mostram atraso no desenvolvimento. A glândula também apresenta prejuízos funcionais, pois produz uma quantidade menor de secreção e conta com menos espaço para armazená-la.
Vale lembrar que a função da próstata é produzir o fluido que protege e nutre os espermatozoides no sêmen, tornando-o mais líquido.
“Esses animais, de maneira geral, apresentam baixo peso no nascimento, órgãos menos desenvolvidos e alteração nos níveis hormonais. Mas, por volta do vigésimo primeiro dia após o nascimento, começamos a observar um crescimento acelerado para tentar compensar o déficit”, disse Justulin.
No trabalho mais recente, os pesquisadores coletaram sangue dos filhotes machos no dia pós-natal 21 e 540. Observaram que, em comparação ao grupo controle, havia um desequilíbrio na relação entre os níveis de hormônio feminino e masculino.
Enquanto o macho controle apresentava 15 picogramas (pg) de estrógeno no dia 21, o macho submetido à restrição proteica durante a gestação e lactação apresentava 20 pg. Já no dia 540, a diferença foi ainda maior: 14 pg no controle contra 35 pg no restrito.
Além disso, no dia 540, a alta no hormônio feminino estava associada a uma baixa na testosterona, o principal hormônio masculino. Enquanto o grupo controle tinha 5 nanogramas (ng), o grupo restrito tinha somente 0,8 (ng).
De acordo com Justulin, no dia 21 não foi observada baixa na testosterona no grupo restrito, pois era justamente a fase em que os animais passavam pelo pico de crescimento acelerado.
“Nossos trabalhos anteriores mostraram que os filhotes submetidos à restrição proteica intrauterina nascem pequenos, mas quando se tornam adultos jovens já não apresentam diferenças em relação aos indivíduos do grupo controle – tanto em tamanho quanto em volume da próstata e nos níveis hormonais. Agora estamos percebendo que, quando os animais envelhecem, as diferenças voltam a aparecer. É como se o envelhecimento funcionasse como um segundo insulto ao organismo, considerando que o primeiro foi a dieta hipoproteica na fase inicial de desenvolvimento”, disse.
A hipótese que os pesquisadores agora tentam comprovar é que a exposição desse animal de idade avançada aos níveis hormonais alterados favorece a carcinogênese, ou seja, o desenvolvimento tumoral.
“Nós observamos isso na próstata, mas há outros estudos mostrando correlação entre o baixo peso no nascimento induzido por restrição nutricional intrauterina e alterações nos níveis de insulina, maior incidência de síndrome metabólica e doenças cardíacas”, disse Justulin à Agência FAPESP.
Atualmente, o grupo do IBB-Unesp investiga as vias de síntese dos hormônios sexuais com o objetivo de entender de que modo a dieta hipoproteica altera o equilíbrio entre estrógeno e testosterona. Outro objetivo é demonstrar o mecanismo pelo qual esse desequilíbrio hormonal favorece o desenvolvimento do câncer de próstata.
Resultados preliminares da pesquisa indicam que, no dia 21 pós-natal, os animais restritos apresentam um conjunto de RNAs mensageiros e microRNAs desregulados.
“Encontramos vários RNAs mensageiros e microRNAs que estão desregulados tanto nos animais de 21 dias, como nos de 540 dias que desenvolvem câncer. Interessante é que algumas destas moléculas também estão alteradas em pacientes humanos com tumores de próstata, conforme observamos em bancos públicos de dados genômicos, com o auxílio de ferramentas de bioinformática”, disse Justulin.
O artigo Maternal Low-Protein Diet Impairs Prostate Growth in Young Rat Offspring and Induces Prostate Carcinogenesis With Aging, de Sergio A. A. Santos, Ana C. Camargo, Flávia B. Constantino, Ketlin T. Colombelli, Fernanda Mani, Jaqueline C. Rinaldi, Suelen Franco, Luiz M. F. Portela, Bruno O. S. Duran, Wellerson R. Scarano, Barry T. Hinton, Sergio L. Felisbino e Luis A. Justulin, pode ser lido em: https://academic.oup.com/biomedgerontology/advance-article-abstract/doi/10.1093/gerona/gly118/4995716?redirectedFrom=fulltext
Fonte: Agência Fapesp

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Direção: Selton Mello

terça-feira, 31 de julho de 2018

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Privação de sono potencializa o efeito de drogas e favorece a dependência química

Privação de sono potencializa o efeito de drogas e favorece a dependência química


A privação de sono tornou-se um fenômeno epidêmico em escala planetária. Pesquisa realizada nos Estados Unidos mostrou que a população adulta que dorme seis horas ou menos cresceu em 31% no período compreendido entre 1985 e 2012. Em entrevista ao jornal The Guardian, Matthew Walker, diretor do Centro para Ciência do Sono Humano, da Universidade da Califórnia em Berkeley, destacou que a privação de sono está disseminada na sociedade moderna e afeta cada aspecto de nossa biologia. E mencionou, entre as consequências, enfermidades como obesidade, diabetes, doenças cardíacas, acidente vascular cerebral, doença de Alzheimer e câncer. 
Outra importante consequência acaba de ser demonstrada, em estudo com modelos animais feito por Laís Fernanda Berro e colegas. Trata-se da potencialização que a privação de sono exerce sobre os efeitos da anfetamina, favorecendo o desenvolvimento de padrões comportamentais relacionados à dependência química. Artigo a respeito foi publicado pelos pesquisadores na revista Neuroscience Letters.
“O sono transformou-se em moeda de troca na sociedade contemporânea. Deixamos de dormir para fazer muitas outras coisas: trabalho, diversão, participação em redes sociais etc. E a associação da privação do sono com o uso de drogas psicoestimulantes, como anfetamina, cocaína e outras, tornou-se muito frequente – não apenas em ‘baladas’ e ‘raves’, mas também por parte de profissionais que precisam trabalhar por turnos, como plantonistas de hospitais, caminhoneiros e outros. Nosso estudo mostrou que a privação de sono exacerba o efeito da droga e contribui para a consolidação do quadro de dependência”, disse Berro à Agência FAPESP.
Doutora pela Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) na área de Medicina e Biologia do Sono, a pesquisadora conclui atualmente pós-doutorado no Centro Médico da University of Mississippi. 
“Os estudos reportados na literatura afirmam que são necessárias quatro sessões para condicionar os animais ao uso de anfetaminas. Nossa pesquisa mostrou que, quando existe privação de sono, bastam duas sessões”, disse. O estudo empregou um método que possibilita investigar a chamada “preferência condicionada por lugar”. 
“Utilizamos um dispositivo composto por dois compartimentos: um com paredes brancas e chão preto; o outro com paredes pretas e chão metálico. Ministramos a droga de abuso – no caso, a anfetamina – em um desses ambientes. No dia seguinte, colocamos o animal, sem administração de droga, no outro ambiente. Com isso, criamos um lugar pareado com os efeitos da droga e um lugar neutro. Depois de algumas sessões, o animal condicionado tende a escolher o ambiente pareado, mesmo que não receba droga alguma”, disse Berro. 
O objetivo do estudo foi verificar se a privação de sono poderia levar ao condicionamento com um número menor de sessões do que as quatro descritas pela literatura. E isso, de fato, ocorreu.
No total, foram utilizados 25 ratos: 13 com privação de sono e 12 no grupo-controle. Após duas sessões de anfetamina, nenhum animal do grupo-controle desenvolveu condicionamento. Mas todos os animais privados de sono desenvolveram. “Isso confirmou nossa hipótese de que a privação de sono é, de fato, potencializadora dos efeitos da anfetamina e contribui para o estabelecimento da dependência química”, disse Berro.
“É claro que é sempre problemático transpor os resultados obtidos com modelos animais para humanos, mas, afinal, é para isso que fazemos experimentos com modelos animais. No caso, nosso experimento permite afirmar que, se uma pessoa estiver privada de sono e fizer uso de anfetamina, ela terá maior propensão a desenvolver o condicionamento entre os efeitos da droga e as ‘pistas ambientais’ – isto é, as características do ambiente”, disse.
Associação entre ambiente e droga
A associação entre os efeitos da droga e o ambiente é algo muito prevalente na vida dos dependentes químicos. A tal ponto que o condicionamento pelas pistas ambientais constitui um dos maiores desafios no tratamento. 
“Mesmo quando dependentes químicos decidem que querem deixar a droga e têm recursos e força de vontade suficientes para passar três meses em uma clínica de reabilitação, limpando o sistema, é muito difícil que, depois de tudo isso, eles possam regressar ao ambiente em que costumavam fazer uso da droga sem experimentar recaídas. Quando as pessoas retornam, as pistas ambientais associadas aos efeitos da droga – que podem englobar desde a audição de uma simples música até o contato com um colega – são suficientes para que elas se lembrem dos efeitos da droga e sintam o impulso de usar de novo”, disse Berro. 
Essa associação entre ambiente e droga é multifatorial. Mas tem uma forte base bioquímica. “Existe uma região bem determinada do cérebro, o núcleo accumbens, na qual a utilização de drogas de abuso provoca um aumento dos níveis de dopamina. Todos os mamíferos possuem essa estrutura cerebral. E o aumento dos níveis de dopamina nessa estrutura está associado à formação de memórias importantes para a sobrevivência”, disse Berro. 
“Alimentação, relação sexual, experiências de luta ou fuga, tudo isso leva a um aumento da dopamina, criando memórias destinadas a perpetuar a vida do indivíduo e a existência da espécie. As drogas de abuso também provocam esse aumento. E é ele que fornece o substrato bioquímico para a associação entre os efeitos recompensadores da droga e as pistas ambientais. Uma vez condicionada, basta que a pessoa entre em contato com o ambiente para já experimentar um aumento de dopamina no núcleo accumbens, que a leva a recordar os efeitos da droga e a querer a droga”, explicou. 
O núcleo accumbens localiza-se no interior do sistema mesolímbico. Trata-se de uma região antiga e primitiva do cérebro. Desde tempos imemoriais, os humanos fazem uso de drogas que aumentam a liberação de dopamina nessa área. O mesmo ocorre com animais. Por isso a dependência química é tão recalcitrante. O córtex pré-frontal, onde existem estruturas associadas à razão e à discriminação, é muito mais recente. Seu poder normativo é fraco comparado às pulsões ancoradas no sistema límbico.
“O principal mecanismo pelo qual a privação de sono potencializa o efeito das drogas de abuso parece estar relacionado também à via dopaminérgica mesolímbica, da qual o núcleo accumbens faz parte. Estudos mostram que a privação de sono em ratos leva a um aumento nos níveis de dopamina no posencéfalo basal, área relacionada ao sono. Ainda não há evidências do aumento de dopamina no núcleo accumbens, mas estudos comportamentais sugerem fortemente isso. A privação de sono faz com que animais apresentem comportamentos que mimetizam ou potencializam aqueles causados por psicoestimulantes”, disse a pesquisadora.
“Além disso, sabe-se que tanto em roedores quanto em humanos a privação de sono altera a disponibilidade de receptores dopaminérgicos no corpo estriado. E, em humanos, também já foi demonstrado que a privação de sono amplifica a reatividade do sistema mesolímbico a estímulos prazerosos. Isso pode constituir uma base bioquímica para o favorecimento da dependência a drogas de abuso”, disse. 
O artigo Sleep deprivation precipitates the development of amphetamine-induced conditioned place preference in rats[https://doi.org/10.1016/j.neulet.2018.02.010], de Laís F.Berro, Sergio B. Tufik, Roberto Frussa-Filho, Monica L. Andersen e SergioTufik, está publicado https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0304394018300831.
Fonte: Agência Fapesp

Rede Nacional de Pesquisa em Biotecnologia Marinha é criada

Rede Nacional de Pesquisa em Biotecnologia Marinha é criada


Em 2016, pesquisadores brasileiros descobriram um recife na foz do rio Amazonas com 56 mil quilômetros quadrados, o Grande Recife Amazônico. A descoberta foi muito comemorada e desencadeou uma série de outros achados que podem servir de ponto de partida para o desenvolvimento de novas tecnologias.
É o caso de um estudo recente que identificou novo grupo de esponjas com alto potencial biotecnológico: Arenospicula (Niphatidae). São organismos carbonatados, como os encontrados no Grande Recife Amazônico, compostos por moléculas e genes ainda desconhecidos, que podem ser fontes de nutrientes para fertilizantes do solo, medicamentos contra doenças infecciosas, o câncer ou até mesmo a produção de heparinas, entre muitas outras aplicações possíveis.
Para impulsionar as pesquisas e alcançar desafios competitivos foi criada a Rede Nacional de Pesquisa em Biotecnologia Marinha (BiotecMar).
“Exemplos como esses e tantos outros mostram que há ainda muito o que conhecer da biodiversidade marinha. Por isso, descobrir novas espécies, mapear novos genes e conhecer melhor a interação entre os microrganismos e macrorganismos são de interesse da BiotecMar”, disse Roberto Berlinck, professor no Instituto de Química de São Carlos da USP e integrante da Rede BiotecMar, à Agência FAPESP.
“Queremos também entender processos importantes como o branqueamento de corais e como esses animais produzem toxinas. Nosso objetivo é alavancar esse conhecimento que tem grande potencial inovador”, disse o também membro da coordenação do programa BIOTA-FAPESP.
Um trabalho recente, publicado na revista Cell por pesquisadores da rede, mostrou que a partir do material genético (bancos de germoplasma e DNA metagenômico) de esponjas, corais e rodolitos, é possível descobrir genes que codificam moléculas bioativas.
Articulada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), a BiotecMar conta com mais de 120 pesquisadores de todo o país, vários com longa carreira na área da biotecnologia, como Wagner Valenti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e Paulo Mourão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A ideia é desenvolver pesquisa inovadora nas áreas de biodiversidade, prospecção, genômica, pós-genômica e transferência para o setor produtivo.
Biodiversidade desconhecida
Em artigo publicado no periódico científico Frontiers in Marine Science, pesquisadores da BiotecMar enumeram estudos e descobertas recentes, assim como o potencial para a área de inovação.
“O objetivo principal da BiotecMar é desenvolver pesquisa de cunho aplicado de origem marinha, mas também novos produtos de aplicação na indústria como, por exemplo, enzimas, pigmentos, suplementos alimentares, alimentação de organismos marinhos e aquicultura marinha. A biodiversidade marinha pode ser considerada uma imensa farmácia submersa e inexplorada que pode ser uma fonte rica para a biotecnologia”, disse o coordenador da rede Fabiano Thompson, professor no Instituto de Biologia na Coppe da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Segundo Thompson, sabe-se que a biodiversidade é a base da biotecnologia marinha e um ativo potencial para a bioeconomia. Porém, a despeito da rica biodiversidade endêmica do Brasil e dos mais de 7 mil quilômetros de costa brasileira, uma parcela significativa permanece inexplorada e desconhecida.
“Conhecemos uma parcela muito pequena da biodiversidade marinha ao largo da costa brasileira e isso é um problema. Estudar a biodiversidade marinha é uma preocupação no mundo inteiro. Não por acaso, existem projetos internacionais de circum-navegação tão grandes como o Projeto Malaspina (Espanha) e o Tara Ocean (França e Alemanha) que visam entender a diversidade de genes no ambiente marinho para aplicações tecnológicas”, disse Thompson à Agência FAPESP.
De acordo com Thompson, embora o investimento por aqui seja menor que naqueles países, a ideia é que a rede acelere a descoberta de conhecimento “para que em 10 anos seja possível o Brasil estar mais próximo desse patamar internacional de biotecnologia marinha”.
Para enfrentar esses desafios, a criação da rede nacional já estava prevista no IX Plano Setorial de Recursos do Mar da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar.
“Existem vários projetos, alguns feitos em equipe, como o Projeto Temático financiado pela FAPESP que eu coordeno, por exemplo. Outros são de caráter mais individual, mas, no geral, os pesquisadores participam da BiotecMar de diferentes maneiras”, disse Berlinck.
Fonte: Agência Fapesp

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Antibiótico que “brota” do chão




A resistência das bactérias aos antibióticos conhecidos está entre as grandes ameaças à saúde da população mundial. A boa notícia é que pesquisadores da universidade norte-americana Rockefeller University descobriram, em amostras de solo, compostos naturais chamados de “malacidins”, com potencial para combater infecções difíceis de tratar. Segundo os cientistas, o chão está repleto de micro-organismos vivos que podem produzir componentes terapêuticos. O teste em roedores foi positivo, mas “há ainda um
longo e árduo caminho”, afirma Colin Garner, um dos membros da equipe. Ele ressaltou que “a preocupação é com as bactérias chamadas gram-negativas, cuja resistência está aumentando. Precisamos de novos antibióticos”.

Fonte: Revista Ser Médico - Edição 83


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InCor oferece curso sobre exercício físico aplicado a cardiopatas



O Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP) abriu inscrições para o curso de aperfeiçoamento “Exercício físico aplicado a cardiopatas: da teoria à prática”, que ocorrerá de 2 de agosto a 11 de dezembro de 2018.
O curso é voltado para profissionais de saúde, incluindo professores de educação física, e será ministrado por especialistas médicos e educadores físicos do InCor.
Segundo o instituto, as aulas capacitarão profissionais da área da saúde que pretendem aprimorar conhecimentos em aspectos que fundamentam a prescrição do treinamento físico para cardiopatas e grupos sociais.
A grade curricular inclui disciplinas teóricas e práticas, como “Fisiologia básica cardiovascular”, “Fisiopatologia do infarto do miocárdio e da doença arterial coronariana”, “Resposta do Exercício Resistido no Sistema Cardiovascular”, “Avaliação direta do consumo máximo de oxigênio (VO2máx): princípios básicos”, “Teste ergométrico: protocolos, critérios de avaliação e interrupção do teste”, “Resposta aguda e crônica do exercício na Diabetes Melitus” e “Aspectos básicos da ressuscitação cardiopulmonar (RCP) e Utilização do DEA e do desfibrilador”.
O curso tem taxa de inscrição de R$ 100 para o processo seletivo. Após o encerramento do processo seletivo, os alunos aprovados serão convocados para a matrícula, que custa R$ 2.400.
Os interessados podem se inscrever pelo site do InCor. Durante o processo de matrícula, devem ser levados os seguintes documentos: CPF, RG, foto 3x4, registro no Conselho Regional de Medicina, comprovante de endereço, carteira de vacinação atualizada e requerimento de matrícula.
As aulas ocorrerão na Escola de Educação Permanente do HCFMUSP, que fica na rua Dr. Ovídio Pires de Campos, 471, Cerqueira César, São Paulo, SP.
Mais informações: https://bit.ly/2A9sSBs
Fonte: Agência Fapesp

Enzima sintética abre novas perspectivas na pesquisa em saúde




Uma pesquisa multinacional apresentou o primeiro exemplo de uma enzima sintética e abiótica em artigo publicado no dia 20 de julho na revista Nature Chemistry.
O trabalho envolveu os grupos liderados pelos professores André Farias de Moura (Universidade Federal de São Carlos), Hua Kuang (Jiangnan University, China) e Nicholas A. Kotov (University of Michigan, Estados Unidos). Moura é pesquisador do Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID), apoiado pela FAPESP.
As enzimas são um dos pilares das diferentes formas de vida encontradas na biosfera terrestre e seu papel é controlar a velocidade de cada reação química que ocorre nas células e tecidos, garantindo um equilíbrio dinâmico entre elas.
Essas moléculas naturais estão entre os catalisadores mais eficientes conhecidos e um dos motivos dessa grande eficiência é o fato de que cada enzima foi sendo otimizada ao longo da evolução para uma reação específica, havendo, portanto, um número muito grande delas em qualquer organismo vivo conhecido.
A busca por enzimas sintéticas vem sendo feita há algum tempo, utilizando-se materiais os mais variados, entre os quais se destacam as nanopartículas de materiais cerâmicos e de metais. Qualquer que seja o material empregado, a dificuldade intrínseca é a mesma: descobrir para qual reação química aquele catalisador será ótimo, ou seja, trata-se de ajustar o catalisador a uma reação específica.
No caso da nova pesquisa, partiu-se de um material cerâmico bastante conhecido por suas propriedades de absorção e emissão de luz: os quantum dots (“pontos quânticos”) de telureto de cádmio (CdTe).
Quantum dots são partículas extremamente pequenas – no caso específico com cerca de 4,5 nanômetros –, o que permite que absorvam e emitam radiação na região da luz visível.
O material cerâmico em si até pode apresentar propriedades fotocatalíticas, mas para funcionar em sistemas biológicos era necessário aumentar a biocompatibilidade das nanopartículas e também a sua afinidade por biomoléculas.
“Ambos os efeitos foram conseguidos com um recobrimento da superfície das nanopartículas com um aminoácido natural, a cisteína. Note-se que a cisteína é uma molécula quiral, o que trouxe uma nova propriedade para o material: a absorção diferente de luz circularmente polarizada à direita ou à esquerda”, disse Moura ao CDMF.
O novo material apresentou uma especificidade para reações de quebra controlada de moléculas de DNA, cortando a dupla hélice de DNA sempre na mesma posição (o chamado sítio de restrição). Assim, produziu-se pela primeira vez uma nanozima (uma nanopartícula que funciona como uma enzima) capaz de fazer a quebra de DNA por fotocatálise com luz circularmente polarizada, de maneira específica e controlada, como faria uma endonuclease de restrição natural.
“Entre tantas aplicações potenciais, uma merece destaque: é possível ajustar uma nanozima para atacar um fragmento de material genético de agentes patogênicos (vírus, bactérias e protozoários), escolhendo um sítio de restrição que não exista no hospedeiro (seres humanos, animais ou plantas). Assim, teríamos como eliminar os agentes causadores de doenças afetando minimamente o doente. Soa promissor, mas primeiro precisamos compreender os mecanismos de funcionamento destas nanozimas e principalmente a origem de sua especificidade para um trecho específico do material genético”, disse Moura.
É neste ponto que entrou o trabalho da equipe brasileira, formada por Moura e Felippe Mariano Colombari, que desenvolveu modelos computacionais para demonstrar onde cada uma das quatro bases que formam o DNA interage com a nanozima.
O estudo utilizou uma quantidade expressiva de recursos computacionais de alto desempenho do supercomputador Santos Dumont (LNCC/MCTIC) e da Cloud@UFSCar, tendo sido avaliados cerca de 2 milhões de estruturas diferentes por meio de cálculos de química quântica.
O resultado foi definir de forma clara porque a nanozima ataca especificamente aquela região da molécula de DNA. Segundo os pesquisadores, baseados nos resultados da extensa modelagem computacional, novas nanozimas poderão ser dimensionadas para reações específicas, seja em sistemas biológicos ou em aplicações industriais.
O artigo Site-selective photoinduced cleavage and profiling of DNA by chiral semiconductor nanoparticles (Nature Chemistry, volume 10, 2018, páginas 821-830), de Maozhong Sun, Liguang Xu, Aihua Qu, Peng Zhao, Tiantian Hao, Wei Ma, Changlong Hao, Xiaodong Wen, Felippe M. Colombari, Andre F. de Moura, Nicholas A. Kotov, Chuanlai Xu e Hua Kuang, pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41557-018-0083-y

* Com informações do CEPID CDMF.  
Fonte: Agência Fapesp

quarta-feira, 27 de junho de 2018

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Sérgio Mendes & Marcelo D2 - Samba da Bênção


Frentes frias podem aumentar mortalidade por AVC

Frentes frias podem aumentar mortalidade por AVC



Com a chegada do frio nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, as quedas de temperatura podem ser acompanhadas pelo aumento no número de mortes por acidente vascular cerebral (AVC), principalmente entre a população com mais de 65 anos. 
Essa associação entre a queda de temperatura e o aumento na incidência de AVC foi demonstrada em um estudo que envolveu dados de mortalidade e dados de estações meteorológicas de 2002 a 2011 na cidade de São Paulo. Os autores verificaram também que entre os idosos a incidência de AVC associado a quedas na temperatura média é maior entre as mulheres. 
Resultados do trabalho estão em artigo que acaba de ser publicado no International Journal of Biometeorology por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Católica de Santos (Unisantos). A pesquisa tem apoio da FAPESP
No Brasil, as doenças crônicas – como doenças cardiovasculares, diabetes e câncer – são responsáveis pela maior parte das mortes em homens e mulheres. Entre as doenças cardiovasculares, o AVC é a principal causa de morte, sendo responsável por 10% de todas elas. 
“Nos Estados Unidos, país de clima temperado onde os invernos são gelados, foi estabelecida uma relação entre o aumento na mortalidade por AVC e as máximas e mínimas de temperatura. No caso do Brasil, mesmo entre as populações das regiões Sul e Sudeste, de clima subtropical, ainda não havia sido realizado um estudo semelhante”, disse o médico Alfésio Luís Ferreira Braga, professor da Unisantos e coautor da pesquisa.
Para averiguar a existência de uma possível relação entre variação térmica e AVC na cidade de São Paulo, a geógrafa Priscilla Venâncio Ikefuti utilizou dados coletados pelo Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade no Município de São Paulo (PRO-AIM). A pesquisa foi coordenada por Ligia Vizeu Barrozo, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
A análise das séries temporais dos dados revelou a ocorrência de 55.633 casos de mortalidade por AVC na cidade de São Paulo entre 2002 e 2011. As temperaturas médias diárias do ar e a umidade relativa do ar foram obtidas a partir de dados coletados pela Estação Meteorológica do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. 
O estudo utilizou a temperatura média, em vez de mínima e máxima, por ser uma média de várias observações no mesmo dia e servir como boa estimativa de exposição ao calor ou ao frio, segundo os pesquisadores. A temperatura média mensal do ar na cidade de São Paulo entre 2002 e 2011 foi de 21 ºC, variando de 15 ºC a 25 ºC, dependendo da estação do ano. 
A fim de ajustar os efeitos da poluição atmosférica na mortalidade, foram coletadas as médias diárias de matéria particulada, ozônio, dióxido de enxofre e dióxido de nitrogênio nas 14 estações de medição de poluentes da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) espalhadas pela cidade.
Com as informações em mãos, Ikefuti partiu para a modelagem estatística dos dados. Foram construídos modelos de regressão de dados (com base no chamado modelo Quasi-Poisson) para estimar os efeitos da temperatura média na mortalidade por AVC e seus subtipos na população total e também entre as pessoas acima de 65 anos.
O estudo mostrou que a temperatura média diária estava associada à mortalidade por AVC e que o risco relativo variou de acordo com a idade e o sexo. Temperaturas mais baixas (abaixo de 15 ºC) foram consideradas estatisticamente mais significativas para mortalidade por AVC do que temperaturas mais altas (acima de 22 ºC).
Partindo-se do universo total de mortes por AVC na capital paulista entre 2002 e 2011, Ikefuti constatou uma média diária de 15,24 mortes no período, sendo ligeiramente superior entre as mulheres (7,99 casos por dia) do que entre os homens (7,25 casos por dia). Durante o período de estudo, essa pequena diferença se tornou expressiva, com cerca de 2 mil mortes a mais de mortes por AVC em mulheres do que em homens.
Entre as pessoas com mais de 65 anos, foram registrados mais casos de AVC hemorrágico em mulheres (5.236 mortes, uma média diária de 5,81 casos) do que em homens (4.071 mortes, média diária de 4,6 casos).
Quando se observam os dados de cada subtipo de AVC, foi identificado no período um total de 29.433 mortes, sendo 12.183 mortes por AVC isquêmico e 17.250 mortes por AVC hemorrágico.
Isquêmico e hemorrágico
O acidente vascular cerebral é uma séria condição médica que ocorre quando o suprimento de sangue que vai para o cérebro é rompido. Há dois subtipos de AVC, o isquêmico e o hemorrágico. 
O AVC isquêmico, também conhecido como isquemia cerebral, é o tipo mais comum (mais de 80% dos casos). Ocorre por causa da obstrução de um vaso sanguíneo no cérebro, que interrompe o fluxo de sangue no local, fazendo com que a área cerebral irrigada por aquele vaso deixe de receber sangue e morra.
Os fatores de risco para a ocorrência do AVC isquêmico são idade (mais frequente quanto maior a idade), tabagismo, hipertensão arterial, obesidade, alto nível de colesterol, histórico familiar de doenças cardíacas ou diabetes  e alcoolismo.
A forma mais grave de AVC é o hemorrágico (10% a 15% dos casos), também conhecido como derrame. Ocorre quando um vaso sanguíneo rompe dentro do cérebro, causando hemorragia e o inchaço na região cerebral onde houve o sangramento, o que prejudica e degenera o tecido nervoso, causando nos casos leves sequelas irreversíveis, e nos casos mais graves o óbito.
Diminuição do metabolismo e menopausa
A diferença entre o total dos casos de AVC (55,6 mil) e a soma dos casos de AVC hemorrágico e isquêmico (29,4 mil) corresponde aos casos (26,2 mil) que não foram classificados como doenças hemorrágicas ou isquêmicas ou outras doenças cerebrovasculares. Isso não quer dizer que entre aqueles 26,2 mil casos sem especificação não existam casos de AVC hemorrágico ou isquêmico, mas apenas que não foram assim notificados. 
Observando-se as estatísticas para cada subtipo de AVC, verificou-se no caso do AVC hemorrágico uma média de mortalidade diária de 4,72 casos, e de 3,34 casos para o AVC isquêmico, para todas as idades. Nos dois casos, a incidência foi maior entre as mulheres. 
Quando todos os dados foram confrontados com as temperaturas médias na cidade de São Paulo no período analisado, descobriu-se que, para todos os tipos de AVC, o risco relativo era maior quando a temperatura média era mais baixa (abaixo dos 15 ºC). 
Quando a temperatura média registrada se manteve na faixa entre os 17 ºC e os 24 ºC, o risco relativo não se mostrou significativo. No entanto, quando a temperatura média foi superior aos 26°C, o risco relativo de AVC isquêmico se revelou significativo para o sexo masculino acima de 65 anos.
Especificamente em relação ao AVC hemorrágico, os resultados do risco relativo mostram que temperaturas mais baixas parecem ser um fator de risco para esse subtipo, especialmente abaixo de 10 ºC, tanto para homens quanto para mulheres. Acima dos 65 anos, no entanto, as temperaturas médias mais baixas representaram maior risco de AVC hemorrágico para as mulheres, um resultado que não era esperado e que surpreendeu os pesquisadores. 
“No início do estudo, achávamos que quando houvesse uma variabilidade acentuada de temperaturas, tanto para o frio quanto para o calor, os resultados seriam semelhantes para os dois subtipos de AVC. Ou seja, nos dias de muito frio ou de muito calor haveria mais mortes de ambos os subtipos. Não foi o que ocorreu. No caso do AVC hemorrágico, o frio é um fator muito mais importante, especialmente entre as mulheres”, disse Ikefuti, que foi professora da Universidade Federal da Fronteira Sul e atualmente trabalha na Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, no Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE). 
Uma explicação para o AVC ser mais comum entre os idosos é resultado da diminuição do metabolismo na terceira idade. Em resposta a mudanças nas temperaturas, os idosos têm menor capacidade de manter a homeostase, ou seja, de regular o metabolismo de modo a manter constantes as condições fisiológicas necessárias à vida.
“Verificamos também que, para todos os casos de AVC e para o AVC hemorrágico em particular, o sexo mais vulnerável é o feminino. Os dados mostram que as mulheres têm, mesmo que ligeiramente, mais alta mortalidade média por AVC. O risco relativo do acidente, calculado para as variações da temperatura média, também foi maior entre mulheres do que em homens. De forma similar, as temperaturas médias mais baixas causaram maior impacto em mulheres, em ambos os subtipos de AVC”, disse Ikefuti. 
Ela explica que o estresse pelo frio resulta em elevação da pressão arterial, bem como em aumento na viscosidade do sangue e na contagem de plaquetas, subindo a pressão arterial de modo a poder causar um AVC hemorrágico. 
Os pesquisadores citam estudos recentes que destacam os principais fatores pelos quais as mulheres são mais suscetíveis ao AVC. A influência de alguns fatores de risco é mais forte em mulheres, como diabetes e hipertensão, porque as mulheres diferem dos homens de várias maneiras, incluindo anatomia, biologia vascular, imunidade, fatores neuroprotetores, coagulação, perfis hormonais, fatores de risco vascular, fatores de estilo de vida e papéis na sociedade.
De acordo com Braga, uma questão importante para explicar o maior risco de AVC entre as mulheres está na menopausa, quando o organismo diminui a produção do estrogênio, o hormônio do desenvolvimento de características femininas. A falta de estrogênio na menopausa sujeita a mulher ao maior risco de doenças vasculares, entre diversos outros sintomas.
“Nosso estudo contribui para a compreensão do impacto da temperatura sobre a mortalidade por AVC em um país tropical, onde a temperatura não seria, supostamente, um fator de preocupação para risco de AVC. O trabalho comprovou que, pelo menos na cidade de São Paulo, este não é o caso”, disse. 
“Apesar de a cidade estar em uma região subtropical, portanto com temperaturas médias mais elevadas do que as dos países temperados, a ocorrência de grandes variações diárias de temperatura, assim como a chegada de frentes frias ou de ondas de calor são, sim, fatores de risco para o AVC, especialmente entre os idosos, e principalmente entre as mulheres”, disse Braga.
O artigo Mean air temperature as a risk factor for stroke mortality in São Paulo, Brazil (doi: https://doi.org/10.1007/s00484-018-1554-y), de Priscilla V. Ikefuti, Ligia V. Barrozo e Alfésio L. F. Braga, está publicado em https://link.springer.com/article/10.1007/s00484-018-1554-y.
Fonte: Agência Fapesp