sexta-feira, 17 de março de 2017

Mãos dadas



Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade (poema do livro Sentimento do mundo)
Foto by Mari Martins


Aids: novos e velhos desafios




Há três décadas, a Aids era uma sentença de morte. Hoje, é considerada uma doença crônica. Os progressos da ciência nos campos do diagnóstico e tratamento da doença, aliados a políticas públicas no País, vêm possibilitando melhor qualidade de vida às pessoas que vivem com HIV.
Os dados estatísticos confirmam uma melhoria no diagnóstico e tratamento precoces, melhor adesão e retenção das pessoas vivendo com HIV em nosso Estado. Atualmente, a morte por Aids ocorre devido ao diagnóstico tardio ou falência terapêutica. As pessoas vivendo com HIV, com seguimento adequado em serviços especializados, podem ter qualidade de vida por tempo indeterminado.
No mundo e no Brasil, a tuberculose é a principal causa de morte entre pacientes com Aids. Dos casos diagnosticados, cerca de 10% são de pacientes também infectados pelo HIV. Todas as pessoas com tuberculose devem ter acesso a esse diagnóstico.
O desafio atual reside, sem dúvida, no campo da promoção dos direitos humanos e prevenção a novas infecções junto a jovens HSH (homens que fazem sexo com homens). Não é mais possível contar com insumos isolados. É preciso uma estratégia ampliada, capaz de dar conta em especial de populações mais vulneráveis.
Desde o início da epidemia de Aids, a promoção do uso do preservativo tem sido a principal estratégia empregada para a prevenção da infecção pelo HIV no Brasil. Esse cenário vem se modificando ao longo do tempo à medida que outras estratégias comportamentais e tecnologias biomédicas de prevenção começam a se mostrar efetivas e disponíveis para a população.
Prevenção Combinada
Entende-se por Prevenção Combinada um conjunto de medidas e estratégias que ajudam as pessoas a evitar a infecção pelo HIV: testagem, camisinha, Profilaxia pré-exposição (PrEP), Profilaxia pós-exposição (PEP), tratamento como prevenção e práticas de menor risco.
A Prevenção Combinada deve ser vista sob três aspectos: como uma combinação de diversas estratégias comportamentais e/ou biomédicas em diferentes momentos da vida de uma pessoa; a partir da sua realidade e dentro das suas possibilidades, num processo de aconselhamento dialogado e não prescritivo, orientado pelo respeito aos direitos humanos e à autonomia das pessoas; e por políticas públicas que garantam acolhimento, informação e acesso aos serviços de saúde e aos insumos de prevenção, principalmente para as pessoas mais vulneráveis. Combinar as diferentes estratégias aumenta a chance de êxito técnico da prevenção, mas também é fundamental que essas façam sentido para quem vai utilizá-las no dia a dia para, assim, aumentar o seu sucesso na prática.
Diante desse contexto, estamos investindo em três grandes frentes – campanhas publicitárias voltadas ao diagnóstico precoce, atividades de incentivo a testagem e prevenção combinada.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) recomenda que os médicos ofereçam aos pacientes, em consulta médica – considerando a conveniência e a oportunidade –, a solicitação de testes sorológicos para o HIV, sífilis, hepatites B e C, bem como a orientação sobre a prevenção dessas infecções. Essa iniciativa, publicada em 15 de março do ano passado, por meio da “Recomendação nº 2/2016”, pode ajudar a ampliar o diagnóstico da infecção pelo HIV em nosso meio.
A ampliação do acesso ao teste depende da implantação de diferentes estratégias que, ao final, são complementares, como oferta na rotina de atendimento ambulatorial independentemente da especialidade, nas unidades de atendimento de Urgência e Emergência, nos Centros de Testagem e Aconselhamento, em campanhas e mobilizações de testagem em datas estratégicas, e ações de testagem focadas em grupos de pessoas mais vulneráveis, realizadas por profissionais de saúde e por agentes da sociedade civil organizada (por meio de ONGs). Para a realização do diagnóstico do HIV dispomos do método sorológico e do teste rápido, que são complementares.
Cidadania e direitos humanos
Para além da tecnologia, percebemos a necessidade de continuar investindo no combate ao preconceito e à discriminação em relação às pessoas vivendo com HIV e populações mais vulneráveis (HSH, travestis e transexuais, profissionais do sexo).
Pesquisa realizada pelo CRT DST/Aids-SP, em parceira com a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, em 2011, na cidade de São Paulo, aponta que gays, HSH e transgêneros (travestis e transexuais) ainda sofrem sérios preconceitos e discriminação. Entre 1.217 participantes, 33,5% declararam ter sofrido abuso, 15,1% sofreram agressões físicas e 62,3% ofensa verbal. As agressões ocorreram na escola, em casa, no trabalho e por policiais em espaços públicos.
É importante ressaltar que até o surgimento da Aids, o acesso de transgêneros aos serviços públicos de saúde no Estado de São Paulo era praticamente nulo, circunscrito a situações de urgência ou de emergência. Para melhor atender essa população foi criado, em 2009, o Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais do CRT DST/Aids-SP. O serviço é considerado uma referência para o País em termos de assistência e direitos humanos. Pesquisas têm sido realizadas, em parceria com universidades, para identificar as barreiras de acesso dessa população aos serviços de saúde.
Meta 90-90-90
A ambiciosa meta 90-90-90, do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), aponta a necessidade de avançarmos nas estratégias de prevenção, acesso ao diagnóstico e tratamento. Espera-se, com essa meta, que, até 2020, 90% de todas as pessoas com HIV saberão que têm o vírus, 90% de todas as pessoas com infecção pelo HIV diagnosticadas receberão terapia antirretroviral, ininterruptamente, e 90% de todas as pessoas recebendo terapia antirretroviral terão supressão viral. Com isso, poderíamos vislumbrar, em 2030, o fim da epidemia de Aids no mundo.
Para que isso seja possível, nas próximas décadas, é indispensável continuar investindo na melhoria da qualidade dos serviços e na capacitação dos profissionais de saúde. E, sobretudo, criar mecanismos para reduzir o preconceito e a discriminação em relação às pessoas vivendo com HIV/Aids e populações mais vulneráveis, para que essas tenham pleno direito à saúde e ao exercício de sua cidadania.

Revista Ser Médico - Edição 78



segunda-feira, 13 de março de 2017

Na padaria inglesa




Quando o Zeluiz Franchini Ribeiro mudava de casa, o primeiro item da nova moradia era: uma padaria na esquina. Tendo uma padaria por perto, o resto era lucro. Tamanho, número de quartos e de vagas na garagem, silêncio, etc., era o de menos. O Zeluiz não conseguia viver sem uma padaria logo ali.
Era ali, no balcão, que ele era mais ele. Aquelas conversas com o bêbado anônimo de cotovelo amassado. Zeluiz chegava ao cúmulo de classificar as padarias por coxinhas. Quando a padaria era ótima, era uma cinco coxinhas. Zeluiz subiu na vida, mas nunca abandonou uma boa padaria. Sem um balcão ele não vivia.
Foi quando foi mandado, pela Globo, para uma convenção em Londres. Nem bem se instalou no hotel e já foi dar a volta, procurando a padaria. Primeira viagem ao exterior mal sabia ele que padaria, enquanto padaria, só mesmo no Brasil. Nem mesmo em Portugal, matriz de todas as nossas padarias, tinha padaria como no Brasil. Em Portugal temos a original pastelaria. Mas não é como a nossa. Imagine, então, em Londres.
Zeluiz não falava inglês. Nem arranhava. Lembrava de alguma coisa do tempo do ginásio. Mesmo assim descolou algo parecido com uma padaria, lá na Inglaterra.
Na primeira noite, depois daquela convenção chata, padaria. Sabia pedir uma cerveja. One beer! E sabia pedir mais cerveja: one more! Pois já estava lá pela quarta, certo que dominava etilicamente o inglês, quando um ilustre britânico acotovelou-se ao seu lado. Cumprimentos com as cabeças, sem texto. Mas o inglês era chegado num papo. Afinal, ninguém vai a uma padaria impunemente.
Começou a falar, o inglês. O Zeluiz não entendia nada. Só balançava a cabeça. Dava para entender alguma coisa. O inglês, pelo o que o Zé ia entendendo, estava falando da vida de merda dele, da mulher dele. O cara estava mal mesmo. Mas o Zé, por mais que tentasse articular uma frase inteira na cabeça, logo se perdia nos verbos. Ficava calado. Não tinha a mínima ideia de qual era o problema real do gordo e ruivo súdito de sua majestade. Mas existe a solidariedade da padaria. Ele tinha que ouvir.
O inglês já estava no terceiro uísque, quando começou a chorar. O inglês já estava quase que abraçado naquele amigo que não entendia nada. Resumindo, os dois já estavam meio bêbados, como convém a frequentadores de uma honesta padaria, mesmo que falsa e inglesa.
Até que chegou uma hora, o inglês parou de falar e ficou olhando para o Zeluiz. Estava claro que era a vez do nosso personagem falar, dar uma força, uma direção para a vida do sujeito. Eles estavam ali, lado a lado, há mais de duas horas. Eram velhos amigos. Mais do que isso. Eram cúmplices. Zeluiz pediu uma saideira e the bill. O inglês também. Zeluiz tinha que dizer alguma coisa. Mas o que? Em que língua? Se ele falasse, àquela altura da amizade, que não tinha entendido porra nenhuma, era bem capaz de levar uma surra. O cara tinha contado a vida toda para ele, ele imaginava. O cara olhando, esperando. E o Zeluiz, com a maior cara de pau do mundo, colocou a mão no ombro dele e disse tudo que sabia, em inglês:
– My friend, yesterday is yesterday. Today is today. And, tomorrow is tomorrow!
Mágica. Aquilo era tudo que o inglês queria e precisava ouvir. O Zeluiz tinha resolvido o problema da vida dele. O inglês beijou o Zeluiz entre lágrimas e dizia:
– Wonderfull! Wonderfull! The best! The best!
Zeluiz pagou a conta e foi embora. Afinal, tomorrow is tomorrow e padaria inglesa nunca mais.

*Mario Prata é escritor, dramaturgo, jornalista e cronista. Tem mais de 80 títulos publicados, entre romances, contos, roteiros e peças teatrais.
Fonte: Revista Ser Médico - Edição 78




Leonardo da Vinci estava certo!



Leonardo da Vinci, mais uma vez, estava certo. Foi identificado um “novo órgão”, conhecido como mesentério, cuja primeira menção, publicamente conhecida, foi feita pelo gênio italiano em um de seus escritos sobre a anatomia humana, no início do século 16. Até pouco tempo atrás considerado como um ligamento do aparelho digestivo, o “novo órgão” passou por uma reclassificação a partir de um estudo em que cientistas concluíram que a estrutura é, na verdade, um órgão único e contínuo. O mesentério é uma dobra dupla do peritônio que une o intestino com a parede do abdômen e permite que ele se mantenha no lugar. O estudo das funções do novo órgão pode abrir caminho para novos métodos cirúrgicos do aparelho digestivo. A reclassificação foi publicada em artigo da revista The Lancet Gastroenterology & Hepatology.

Fonte: Revista Ser Médico - Edição 78


Nação Espacial




Parece brincadeira de malucos, mas muitas pessoas sérias fazem parte de um grupo que pretende criar a primeira nação espacial, conhecida como Asgardia, em referência ao reino dos deuses da mitologia nórdica. No fechamento desta edição da Ser Médico, havia 163.359 pessoas inscritas candidatando-se a serem os futuros “asgardians”. A intenção é construir uma estação espacial onde os cidadãos possam morar e trabalhar. O projeto visa “servir a humanidade” e buscar a “paz no espaço”, de acordo com Igor Ashurbeyli, empresário, cientista russo, líder e pioneiro da iniciativa. Para Ram Jakhu, diretor do Instituto de Lei Aérea e Espacial da Universidade McGill, com cidadãos, um governo e uma nave desabitada para chamar de território, a futura nação terá três de quatro elementos da ONU para ser considerada uma nação. Faltaria apenas o reconhecimento dos outros membros da organização. Ficou interessado(a)? Para se inscrever acesse o site do projeto http://asgardia.space/citizenship


Fonte: Revista Ser Médico - Edição 78


quinta-feira, 9 de março de 2017

USP produz compostos artificiais com ação antitumoral

USP produz compostos artificiais com ação antitumoral


Compostos antitumorais, com potencial para uso na fabricação de medicamentos, vêm sendo planejados, sintetizados e estudados no Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP). São íons complexos que penetram nas células cancerosas e atacam o DNA e as mitocôndrias. No DNA, causam danos oxidativos após se ligarem à sua estrutura. Nas mitocôndrias, as organelas responsáveis pela respiração celular, desacoplam o processo respiratório da síntese da ATP, adenosina trifosfato, o nucleotídeo que armazena a energia das células. O duplo ataque induz a apoptose, morte celular programada, podendo levar à eliminação do tumor.
Essa classe de compostos – que já foi objeto de três pedidos de patentes, depositados no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) pela Agência USP de Inovação – vem sendo obtida no contexto dos Projetos Temáticos apoiados pela FAPESP: “Espécies complexas com potencial aplicação em bioinorgânica, catálise, farmacologia e química ambiental: concepção, preparação, caracterização e reatividade”, conduzido de 2006 a 2010, e “Desenvolvimento de compostos com interesse farmacológico ou medicinal e de sistemas para seu transporte, detecção e reconhecimento no meio biológico”, iniciado em 2011 e com vigência prevista até agosto de 2017. Os dois projetos são coordenados por Ana Maria da Costa Ferreira, professora titular do IQ-USP.
Os dois integram o portfólio de pesquisas do Centro de Pesquisa em Processos Redox em Biomedicina (Redoxoma), um dos 17 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) apoiados pela FAPESP.
“Nosso ponto de partida foi a isatina, um metabólito de aminoácidos como o triptofano, encontrado em organismos vegetais, animais e humanos. Esse composto de origem natural foi modificado no laboratório por meio de reações com aminas e, depois, acrescido de íons de metais essenciais, como cobre e zinco, entre outros”, disse Costa Ferreira à Agência FAPESP.
A isatina já apresenta, ela mesma, reconhecidas atividades antifúngicas, antibacterianas, antivirais e antiproliferativas. As modificações feitas potencializam sua ação e, ao mesmo tempo, criam compostos muito estáveis, capazes de se preservar na corrente sanguínea e penetrar integralmente nas células cancerosas, para onde são atraídos.
“Uma vez no ambiente celular, esses complexos metalizados se ligam ao DNA, danificando-o por meio de mecanismos oxidativos, com a consequente clivagem simples ou dupla das fitas que os constituem. Ao mesmo tempo, induzem a perda do potencial de membrana das mitocôndrias, alterando sua estrutura. O resultado é a apoptose, que não causa processo inflamatório no organismo”, descreveu Costa Ferreira.
Buscando entender em profundidade os mecanismos de ação dos compostos, os pesquisadores verificaram que eles são capazes de inibir algumas proteínas muito importantes para a vida das células: a topoisomerase 1B, responsável pela manutenção da topologia do DNA; e as quinases dependentes de ciclinas, uma classe extensa de proteínas que controlam o ciclo celular.
“A topoisomerase 1B corrige o emaranhamento das fitas do DNA. Ela se prende ao DNA; cliva uma das fitas; gira-a para emparelhá-la à outra fita; e a liga de novo. Já as quinases CDK1 e CDK2 regulam diversas fases do ciclo celular. Ao se unirem a essas enzimas, nossos compostos inibem suas atividades, comprometendo o desenvolvimento normal das células”, explicou Costa Ferreira.
O fato de os compostos artificialmente metalizados serem mais ativos do que seus precursores orgânicos se deve à polarização elétrica das moléculas, causada pelos íons metálicos. Em solução, a parte positiva (cátion) se separa da negativa (ânion). E, no cátion, o metal apresenta-se unido a um ligante orgânico. Por ser lipofílico, isto é, por apresentar afinidade química com gorduras, o ligante consegue penetrar na membrana celular, e carrega o metal para dentro da célula, desencadeando as ações já descritas.
Esses ligantes orgânicos – que, devido à sua composição e estrutura químicas, são classificados como oxindoliminas – foram planejados com base em compostos já usados em testes clínicos (fases II e III) e aprovados pela FDA (Food and Drug Administration, órgão do governo norte-americano responsável pelo controle dos alimentos e medicamentos) como agentes contra o câncer. A metalização aumenta significativamente sua eficiência. Pois a ligação ou interação com a estrutura do DNA e das proteínas ocorre tanto por meio do metal como do ligante coordenado.
Várias tentativas vêm sendo feitas no IQ-USP no sentido de produzir complexos ainda mais eficazes. “Um deles é um composto semelhante que criamos contendo cobre e platina. Esses dois metais têm atuação muito diferente no interior da célula tumoral. A platina se prende ao DNA, como se fosse uma pinça, dificultando e inibindo sua atuação. Já o cobre consegue clivar o DNA por meio da formação de espécies reativas. Nossa ideia foi combinar a ação de ambos para associar seus efeitos”, afirmou Costa Ferreira. O novo composto mostrou-se tão ou mais eficiente do que a cisplatina, metalofármaco já aprovado pela FDA, frente a diversas células tumorais (melanomas e sarcomas).
Outra linha bastante recente de investigação diz respeito à ancoragem dos complexos ativos em nanoestruturas, concebidas como vetores ou agentes transportadores.
“As nanoestruturas facilitam a penetração nas células, possibilitam que quantidades menores da substância ativa sejam utilizadas e promovem sua liberação gradual. Tudo isso contribui para a eventual produção de um fármaco mais eficaz e com menos efeitos colaterais indesejados. Resultados positivos já foram obtidos com nanoestruturas de argila sintética”, relatou Costa Ferreira. Estes estudos estão sendo desenvolvidos em colaboração com a pesquisadora Vera Regina Leopoldo Constantino, professora associada do IQ-USP e também participante do projeto temático em curso.
Fonte: Agência Fapesp

Percepção musical em crianças pode predizer dificuldades de aprendizagem

Percepção musical em crianças pode predizer dificuldades de aprendizagem



Um teste capaz de medir o grau de percepção musical em crianças de 6 a 13 anos foi desenvolvido por um grupo que reúne cientistas brasileiros, canadenses, norte-americanos e britânicos.
Os resultados da pesquisa, apoiada pela FAPESP, foram divulgados em janeiro na revista Frontiers in Neuroscience.
“Nosso objetivo, no futuro, é tentar comprovar que essa ferramenta é eficaz para identificar crianças predispostas a apresentar dificuldades na aquisição da linguagem oral e escrita. Isso possibilitaria aos pais e professores realizar intervenções precoces”, contou Hugo Cogo Moreira, professor orientador da Pós-Graduação em Psiquiatria e Psicologia Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador do projeto.
Segundo o pesquisador, evidências da literatura científica sustentam a hipótese de que o grau de percepção musical da criança – isto é, a capacidade de perceber determinadas propriedades da música, como timbre, intensidade, melodia e ritmo – está correlacionado com sua habilidade para aprender a linguagem verbal, tanto oral como escrita.
“A música é uma forma de linguagem não verbal. E a linguagem verbal, por sua vez, tem componentes musicais. Envolve percepção de frequências diferentes de voz, entonação e padrão de métrica, entre outros fatores”, explicou Moreira.
A percepção musical, acrescentou o pesquisador, está diretamente ligada à consciência fonológica, que é a capacidade de segmentar o som das palavras nas suas menores partes – como nos exercícios que professores costumam fazer com crianças durante a alfabetização, nos quais se pede para manipular o som em sílabas (B + A = BA; C + A = CA; etc.).
“A consciência fonológica é uma habilidade básica que precede a leitura. Acredita-se em um efeito cascata: quanto maior a percepção musical, mais fácil seria perceber nuances nos sons e essa habilidade auxiliaria na apreensão de leitura de palavras isoladas. Logo, torna-se mais fácil desenvolver a leitura contextual, entender o que está escrito e isso impacta todo o desempenho acadêmico”, disse Moreira.
Na avaliação do pesquisador da Unifesp, a grande vantagem de usar a percepção musical como um preditor da habilidade de leitura e escrita é o fato de a percepção musical ser uma linguagem universal, que independe do idioma ou da cultura. A mesma metodologia, portanto, poderia ser aplicada em crianças de todo o mundo.
Fator-M
Insatisfeitos com os testes até então disponíveis para mensurar a percepção musical, o grupo coordenado por Moreira decidiu criar uma nova ferramenta capaz de avaliar a capacidade das crianças de notar variações em sete diferentes domínios musicais: timbre, métrica, escala, intensidade, contorno musical, duração e tom.
Para isso, foram produzidos e gravados diferentes e curtos excertos musicais em programas sofisticados de composição, com sons em alta qualidade e diferentes timbres musicais (inclusive sons ruidosos), abarcando a compreensão musical para além dos tradicionais sons do violino e piano disponíveis em outros testes.
Todos os estímulos sonoros são inéditos e foram compostos por Caio Giovaneti de Barros, aluno de doutorado do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (IA-Unesp) e primeiro autor do artigo.
Organizados em pares, esses estímulos sonoros formam ao todo 80 tarefas que desafiam as crianças a descobrir se cada par musical é semelhante ou apresenta variação em algum dos sete domínios.
Clique nos links a seguir para abrir os arquivos sonoros - formato .wav


“Os testes até então existentes usam diferentes combinações dos domínios musicais. Alguns incluem apenas três deles, como métrica, tom e ritmo. Outros misturam quatro ou cinco domínios. Mas, de maneira geral, a qualidade sonora dos estímulos musicais é ruim (arquivos MIDI). Além disso, muitos testes usam músicas conhecidas, como Parabéns a Você. Nós fizemos questão de desenvolver estímulos musicais completamente novos para que o histórico auditivo da criança não interferisse no resultado”, contou Moreira.
O teste foi aplicado em 1.006 crianças entre 6 e 13 anos, igualmente distribuídas entre o primeiro e o quinto ano do Ensino Fundamental e matriculadas em 14 escolas do Estado de São Paulo – sendo 38% delas privadas.
Em seguida, o grupo analisou os resultados por meio de um modelo estatístico conhecido como modelo bifatorial (ou modelo geral-específico), pelo qual um peso diferente é atribuído no final a cada um dos domínios avaliados.
“Para nossa surpresa, observamos que medir isoladamente cada um dos domínios nos diz muito pouco sobre a percepção musical de um indivíduo. Eles todos têm um peso muito pequeno em comparação a um fator geral que parece governar os demais. A esse fator geral nós chamamos Fator-M”, contou Moreira.
O pesquisador comparou o “Fator-M” identificado no estudo com o chamado “Fator-G”, um fator geral que governa o nível de inteligência de um indivíduo segundo a teoria proposta pelo pesquisador inglês Charles Spearman no início do século 20.
“Não adianta, portanto, a criança ter uma boa percepção de timbre ou uma boa percepção de métrica apenas. O que realmente indica se a percepção musical é boa ou não é o escore do Fator-M”, disse Moreira.
Entre as crianças analisadas, a grande maioria apresentou um escore mediano.
Gráfico mostra a distribuição do Fator-M na população estudada. A maioria tem níveis medianos. À esquerda, aqueles com percepção muito abaixo da média e, à direita, muito acima da média
Não houve diferença significativa no grau de percepção musical de meninos e de meninas, contrariando trabalhos que geralmente apontam vantagem para o sexo feminino em testes de linguagem verbal.
Crianças de escolas particulares apresentaram resultado ligeiramente superior ao de crianças de escolas públicas. Quando comparados indivíduos de diferentes idades, porém, não houve diferença. Segundo Moreira, isso sugere que o Fator-M não aumenta com a idade.
“Se a criança de 12 anos não tem, em média, um escore maior que a de 6, tudo indica que essa percepção musical é algo inato, que até pode ser estimulado, mas, em boa medida, já vem de fábrica. Mas, para termos certeza disso, seria preciso fazer um estudo de seguimento e acompanhar as mesmas crianças ao longo de seu desenvolvimento”, avaliou Moreira.
De acordo com o pesquisador, o passo seguinte da investigação é aplicar o teste em um outro grupo de crianças e tentar correlacionar o resultado do Fator-M ao desempenho do participante na escola em medidas de leitura e escrita.
Para ser usada como ferramenta preditora para crianças pré-escolares, porém, o teste teria de ser adaptado. “Com 80 tarefas, o teste é muito longo para crianças menores de 6 anos. Mas, se conseguirmos adaptá-lo e mostrar que é capaz de predizer dificuldades na aquisição da linguagem, torna-se possível realizar intervenções muito precoces, como aulas de musicalização, por exemplo”, afirmou.

O artigo “Assessing Music Perception in Young Children: Evidence for and Psychometric Features of the M-Factor” pode ser lido em:http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fnins.2017.00018/full


Fonte: Agência Fapesp

sexta-feira, 3 de março de 2017

Antibiótico doxiciclina pode ser esperança no tratamento do Parkinson

Antibiótico doxiciclina pode ser esperança no tratamento do Parkinson


Um estudo publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, sugere que o medicamento antibiótico doxiciclina – usado há mais de meio século contra infecções bacterianas – pode ser indicado em doses mais baixas para o tratamento da doença de Parkinson.
Segundo os autores, a substância reduz a toxicidade de uma proteína conhecida como α-sinucleína, que em certas condições forma agregados que recobrem e lesam as células do sistema nervoso central. A morte dos neurônios dopaminérgicos (produtores do neurotransmissor dopamina) é o principal evento relacionado ao desenvolvimento de sintomas como tremores, lentidão de movimentos voluntários e rigidez, entre outros. Não há atualmente fármacos capazes de impedir que esse processo degenerativo progrida.
A pesquisa contou com apoio da FAPESP e a participação de três cientistas brasileiros vinculados à Universidade de São Paulo (USP): Elaine Del-Bel, da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP), Leandro R. S. Barbosa e Rosangela Itri, ambos do Instituto de Física (IF), na capital.
“Temos dados animadores de experimentos com camundongos e uma grande esperança de que o efeito neuroprotetor também possa ser observado em pacientes humanos. Esse tratamento poderia impedir a evolução da doença de Parkinson e, portanto, pretendemos iniciar em breve um ensaio clínico”, disse Del-Bel em entrevista à Agência FAPESP.
A descoberta agora detalhada nas páginas da Scientific Reports ocorreu de forma fortuita, há cerca de cinco anos, quando Marcio Lazzariniex-aluno de Del-Bel, realizava o pós-doutorado no Max Planck Institute of Experimental Medicine, na Alemanha.
Para estudar possíveis alternativas terapêuticas contra o Parkinson em camundongos, o grupo recorreu, naquela época, a um modelo bastante consagrado para induzir nos animais uma condição semelhante à doença humana. O método consiste em administrar uma neurotoxina – a 6-idroxidopamina (6-OHDA) – que causa a morte dos neurônios dopaminérgicos.
“Mas para nossa surpresa, dos 40 animais que receberam a 6-OHDA, apenas dois desenvolveram sintomas de parkinsonismo, enquanto os demais permaneceram saudáveis. Uma técnica do laboratório percebeu que os roedores haviam sido alimentados por engano com uma ração que contém doxiciclina. Começamos então a investigar a hipótese de que a substância poderia ter protegido os neurônios”, contou Del-Bel.
O grupo repetiu o experimento e acrescentou um segundo grupo de animais que, em vez de receber a doxiciclina pela ração, foi tratado com injeções do antibiótico em doses baixas no peritônio.
“Foi um sucesso nos dois casos. Publicamos os resultados na revista Glia, em 2013, sugerindo que, em doses subantibióticas, a doxiciclina poderia ter um efeito anti-inflamatório, protegendo os neurônios dopaminérgicos”, contou Del-Bel.
Mecanismo de ação
Entender os mecanismos por trás do efeito neuroprotetor da doxiciclina tem sido o foco dos estudos mais recentes, realizados em colaboração com o grupo liderado pela pesquisadora Rosana Chehin, da Universidade de Tucumán, na Argentina, além de duas pesquisadoras do Instituto do Cérebro e da Medula Espinhal sediado em Paris, na França: Rita Raisman-Vozari e Julia Sepulveda-Diaz. A colaboração com Chehin tem apoio da FAPESP por meio de um acordo com o Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas de la República Argentina (Conicet), no âmbito do Programa SPRINT – São Paulo Researchers in International Collaboration.
Nesses novos ensaios, que envolveram métodos de caraterização estrutural e espectroscópicos, o foco foi a proteína α-sinucleína – considerada uma das principais causadoras da morte dos neurônios dopaminérgicos.
“A α-sinucleína é uma proteína desordenada pequena que, na presença da membrana celular, se agrega formando fibras com uma ordem estrutural de empilhamento de folhas-beta ao longo do eixo. Chamamos essas fibras de amiloides. Já foi provado que grandes fibras amiloides dessa proteína não são tóxicas para as células e sim os chamados estágios oligoméricos, formados por pequenas quantidades de α-sinucleína agregada. Esses oligômeros são capazes de lesar a membrana dos neurônios”, contou a professora Itri.
Os pesquisadores sintetizaram pequenos oligômeros de α-sinucleína para estudar in vitro se a doxiciclina interferia no processo de agregação e de formação de fibras.
Com uma combinação de três diferentes técnicas – ressonância magnética nuclear, espalhamento de raios X a baixos ângulos e espectroscopia por infravermelho – foi possível perceber duas situações distintas. No meio sem doxiciclina, α-sinucleína se agrega em direção à formação de fibras amiloides. Já no meio contendo o antibiótico, a proteína forma outro tipo de agregado, com forma e tamanho diferente. Nos testes em cultura de células e membranas modelo, observamos que eles não causaram danos à membrana celular”, contou Itri.
Os testes em cultura foram feitos com células imortalizadas de neuroblastoma humano. Usando técnicas de microscopia eletrônica de transmissão, o grupo observou que a presença de doxiciclina no meio de cultura reduziu a agregação de α-sinucleína em mais de 80%. “Como consequência, aumentou a viabilidade das células em mais de 80%”, contou Del-Bel.
No âmbito de um Projeto Temático apoiado pela FAPESP, a professora da FORP-USP tem investigado mais profundamente os efeitos do tratamento com doxiciclina em camundongos. "A investigação também está vinculada ao projeto "Mecanismos celulares e moleculares envolvidos no papel de neurotransmissores atípicos em transtornos neuropsiquiátricos", coordenado por Francisco Silveira Guimarães", diz Del-Bel. 
“Ainda não temos dados publicados, mas posso adiantar que a doxiciclina melhora os sintomas da doença no modelo animal. Resultados preliminares nos sugerem que, além da ação anti-inflamatória, de diminuir a liberação de algumas citocinas, a doxiciclina também altera a expressão de alguns genes-chave para o desenvolvimento do Parkinson”, disse Del-Bel.
Segundo a pesquisadora, evidências da literatura científica indicam que os agregados de α-sinucleína podem recobrir e lesar não apenas os neurônios, como também astrócitos e as demais células da glia. Além de Parkinson, portanto, esse processo está relacionado ao desenvolvimento de outras doenças neurodegenerativas, como a demência com corpos de Lewy (DCL) – o segundo tipo mais comum após o Alzheimer. Estudos futuros poderão investigar se a doxiciclina também pode ter efeito benéfico nessas outras situações.
O artigo “Repurposing doxycycline for synucleinopathies: remodelling of α-synuclein oligomers towards non-toxic parallel beta-sheet structured species” pode ser lido em: www.nature.com/articles/srep41755.
Fonte: Agência Fapesp

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Reprodução animal e humana



Pela primeira vez, cientistas japoneses conseguiram usar células-tronco para criar in vitro óvulos de camundongo (foto acima), desenvolvendo, em seguida, embriões que, transferidos para as fêmeas de camundongos, geraram filhotes saudáveis e férteis, em 4% dos casos. A pesquisa – liderada por Katsuhiko Hayashi, da Universidade de Kyushu, no Japão – traz novas perspectivas para estudos sobre a reprodução animal e humana. Estudiosos acreditam que a pesquisa, recém-publicada na revista Nature, pode levar a novos tratamentos contra a infertilidade. Mas, ressalvam, faltam, ainda, muitos estudos para se chegar à aplicação na medicina. Mais informações: http://www.nature.com/news/mouse-eggs-made-from-skin-cells-in-a-dish-1.20817

Fonte: Revista Nature




Redes Sociais! Sair ou permanecer nelas?

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 Já pensou em excluir o seu perfil numa rede social?

Pesquisa feita com 4.831 usuários de mídias sociais, pela empresa Kaspersky Lab em 12 países, entre eles o Brasil, revelou que 78% deles já consideraram sair das mídias sociais pelos seguintes motivos: 39% acham que estão perdendo muito tempo; 30% ficam incomodados com o monitoramento feito pelas grandes empresas de tecnologia; 4% não aguentam mais bullying em seus posts; 3% porque a página foi hackeada e parte da vida arruinada; 15%, por outros motivos. No entanto, como era de se esperar, a principal razão para permanecer nessas mídias foi, para 62% dos entrevistados, manter contato com parentes e amigos (62%); 21%, pela vontade de compartilhar memórias online;e 18%, por usar as mídias sociais para entrar em serviços da web.

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Fonte: Kaspersky Lab