segunda-feira, 9 de abril de 2012

Psicologia e drogatização


PSICOLOGIA E DROGADICÇÃO
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 10% das populações de centros urbanos do mundo consomem abusivamente substâncias psicoativas. Em todo o planeta, cresce cada vez mais o debate sobre como lidar com essa questão.
Nesse contexto, a Psicologia aparece como uma importante personagem, seja na promoção da qualidade de vida da população, na redução dos estigmas sociais com que sofrem os usuários ou no seu tratamento.
O psicólogo é um profissional reconhecidamente necessário nos diversos níveis de complexidade da atenção às pessoas que usam, abusam ou manifestam problemas de dependência decorrentes do uso indevido de álcool e outras drogas.
Ao falar sobre a Psicologia inserida no âmbito das substâncias psicoativas, a primeira questão que aparece é de que formas os psicólogos podem atuar nessa área?
Há várias formas de se trabalhar com dependentes químicos, mas penso que o mais importante é a que atende ao pedido do paciente, que o ajuda a pensar e agir sobre o seu uso de drogas. O trabalho do psicólogo deve estar atrelado à idéia de co-participação para o alcance de uma vida produtiva e socialmente construtiva pelo usuário, propondo a ascensão de responsabilidades e de sua auto-regulação.
A melhor forma de trabalhar com usuários de álcool e outras drogas é com a chamada redução de danos. Trata-se de um conjunto de estratégias que visa minimizar os danos causados pelo uso de drogas: danos esses sociais e à saúde, e defende o direito de opção das pessoas de usarem drogas ou não, o que é baseado nos princípios dos Direitos Humanos. O que orienta a redução de danos é o respeito à liberdade de escolha. Os estudos e experiência dos serviços demonstram que muitos usuários, por vezes, não conseguem e/ou não querem deixar de usar drogas e, mesmo esses, precisam ter o risco de infecção pelo HIV, hepatite, tuberculoses e outras doenças evitados ou minimizados.
Com esse propósito, a política de redução de danos traz ações que diminuam riscos associados à droga, como o compartilhamento de seringas e agulhas para o uso injetável ou de canudos e cachimbos para consumo do crack, práticas sexuais de risco para DST/Aids e hepatite, condução de veículos em estado de intoxicação ou embriaguez, exposição a situações de violência para obter e/ou usar as drogas etc. Assim, algumas práticas da redução de danos incluem, por exemplo, distribuição de seringas descartáveis e de preservativos Mas a redução de danos vai muito além dessas ações, ela não se restringe a esse tipo de prática, existe ainda atividades de informação, educação e comunicação, aconselhamento e vacinação contra hepatite.
A noção de usuário traz para o campo da Redução de Danos, da Prevenção e Promoção da Saúde a idéia de protagonismo. Não falamos de doentes, nem do uso de droga como crime. Existe, na prática, a construção de um saber comum; são os próprios usuários que vão dando informações para a construção das ações. Eles deixam de ser passivos (doentes) ou marginais, para se transformarem em cidadãos com amplos direitos.
No trabalho de redução de danos, a abstinência às drogas pode vir a ser um dos objetivos a serem alcançados, mas não pode ser o único pretendido nem o primeiro a ser esperado. É inconcebível que uma pessoa que não aceite ou não consiga a abstinência de forma imediata, seja alijada de acolhimento e de tratamentos em um estabelecimento de saúde.
É essencial destacar que a redução de danos pode ser inserida em qualquer área da Psicologia. Nossa profissão é bastante diversa e permite que possamos atuar nas mais diferentes especialidades dentro da ótica da redução de danos, uma vez que ela respeita a autonomia e os Direitos Humanos. Entre essas áreas, a psicóloga cita: a clínica (discussão com o paciente sobre os danos que a droga causa nas suas relações e construção com ele de estratégias para minimizar esses danos); a hospitalar (garantia de que o paciente identificado como usuário de drogas não seja discriminado no serviço de saúde); a social (atuação na "rua" e supervisão de equipes que fazem o trabalho de acesso para implementação das estratégias de redução de danos); e a comunitária (trabalho com a comunidade para a desconstrução do estigma do usuário).
Muitos profissionais ressaltam ainda que é uma forma eficaz de diminuir o preconceito que sofrem os usuários de drogas. "As estratégias de redução de danos constroem, gradativamente, um lugar social para muitos usuários a partir de um parâmetro ético que enfrenta os mecanismos de exclusão, favorecendo a presença de condições de maior respeito e de maior aceitabilidade social para as escolhas pessoais, isso é importante porque o estigma social faz com que muitos usuários de drogas (lícitas ou ilícitas) busquem proteger-se evitando revelar sua condição de saúde perante a sociedade, o sistema de saúde ou profissionais pouco respeitosos com seus hábitos e escolhas pessoais.
O psicólogo vê a necessidade de ser transformada a idéia de que todo consumidor de substância psicoativa seguirá um caminho que o levará ao crime, à doença ou à morte, essa idéia faz parte de uma estratégia repressiva, que precisa ser mudada. Compreender e priorizar as intervenções sob a ótica da redução de danos significa adotar uma estratégia de saúde comprovadamente eficaz. A construção da cidadania do usuário de drogas frente à ilegalidade de suas práticas representa um dos maiores impasses para o planejamento e a execução de políticas de saúde que valorizem os Direitos Humanos e respeitem a autonomia dos usuários.

Coluna assinada pela Dra. Marisa Martins - Psicóloga - CRP: 06/30413-0
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