quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A Peste



Eu estava lendo um artigo sobre epidemias e encontrei um texto do poeta e crítico literário italiano Giovanni Boccaccio, que descreve a cidade de Florença, dez anos depois de ter sido assolada pela peste (Peste Bubônica ou Peste Negra). O texto faz parte da sua obra entitulada Decameron.

Epidemias como a Peste Negra ou a Gripe Espanhola, dizimaram parte significativa da humanidade, que ainda hoje enfrenta os grandes riscos das mutações virais. Está claro que com a evolução tecnológica, tudo tornou-se mais fácil, mas isso não é garantia de que grandes epidemias não ocorrerão mais. Mesmo hoje, a ciência e os médicos, estão sempre sujeitos a ter de lidar com mutações virais e seus grandes desafios, por isso, sempre é bom lembrar que "higiene" é uma das ações mais importantes na vida do ser humano e não é só uma questão de higiene consigo mesmo, mas com seu animal de estimação, com a sua casa, com a sua cidade, pois a epidemia da Peste Negra, por exemplo, espalhou-se por falta de higiene e com isso houve o aumento de ratos portadores da bactéria Pasteurella pestis. Esse organismo infectava os humanos, principalmente por meio da picada de pulgas.

A Peste, by Boccaccio

"No ano de Nosso Senhor de 1348, em Florença, a cidade mais formosa da Itália, ocorreu a mais terrível epidemia: seja por influência dos planetas, seja porque Deus a tenha enviado como justo castigo por nossos pecados, irrompeu alguns anos antes no Oriente e depois saltou de lugar em lugar, levando a mais espantosa desolação por onde passava, até alcançar o Ocidente, onde, apesar de todas as tentativas que a arte e a previsão humana sugeriam, como manter a cidade limpa de lixo e expulsar todas as pessoas suspeitas (...) Apareciam tumorações nas virilhas ou nas axilas, do tamanho de uma maçã pequena, ou mesmo de um ovo, enquanto no Oriente ocorriam hemorragias nasais que pressagiavam um desenlace fatal. Depois, apareciam manchas purpúreas em quase todo o corpo... mensageiros habituais da morte. Nem o conhecimento médico, nem o poder dos medicamentos tinham qualquer efeito sobre essa doença, seja por ser fatal por si mesma, seja porque os médicos, cujo número se viu aumentado por charlatões e farsantes, não podiam descobrir nem a causa e nem o tratamento, e pouquíssimos escaparam. Morriam geralmente no terceiro dia e sem febre (...) A enfermidade crescia dia a dia, ao comunicar-se do enfermo até as fontes (...) Nem sequer havia necessidade de falar com o enfermo ou estar perto dele; bastava tocar suas roupas ou qualquer coisa que havia tocado (...) Estas ocorrências e outras semelhantes atemorizavam os sobreviventes, visto que tanto os enfermos como os que haviam tido contato com eles tinham o mesmo final, cruel e desumano (...) Alguns pensavam que o melhor era viver com moderação (...) porém outros defendiam uma vida livre, sem privar-se de nenhuma satisfação (...) e foi ignorada toda lei, tanto humana como divina (...)".

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Fonte: Revista Ser Médico - Pag. 31 - História da Medicina


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