sexta-feira, 4 de junho de 2010

Reportagem Urbana

Pelas ruas e avenidas e ruelas
baldios terrenos, becos e favelas
páteos de edifícios, e travessas angulares
morros soterrados de ladeiras
calçadas de enxurradas de detritos
andam passos leves, quase vôos
 pés pequenos de meninos desvalidos.
Pisam sobre asfalto, sobre terra
 multidões de pés apodrecidos.
 Vão aos pares, leves borboletas
 asas de morcego, ícaros desfeitos
 batendo chão de morte e chão de guerra.
 Levam secas pernas, joelhos tortos
 nós em corda tensa, varas, ossos 
 mal cobertos. E de guerra e morte 
pulsa a luta no seu ventre - dura luta
sonho e verme, visgo e sangue ralo,
roxas bactérias e fome, fome, fome
na urdidura de noites mastigadas
e dias tintos de fuligem cancerosa.
 Peitos órfãos de amanhãs agasalhados
magros peitos abraçados de costelas
e do fino frio fiado pela madrugada.
 Braços magros, mãos vorazes que se estendem
 em direção a um simbólico trocado.
Cabeças de meninos desgrenhados
olhos fundos, rasas poças de água e óleo.
Sujas borboletas paulistanas
nordestinas, apátridas, baianas
- são seiscentos mil
sobras de outros tantos natimortos
e dos que mal chegaram a estrear o seu espanto
- infância brasileira nos seus nunhos
sob as colunas das pistas elevadas
por onde correm, correm automóveis
para outros caminhos multicores preocupados
cegos podres de omissão e de progresso.
- O que vai ser, menino
se por acaso crescer?
- Sei não... nem rei, nem capitão
na guerra morrerei soldado
na paz com sorte serei ladrão.
Sobre o chão da cidade, fundo poço
o menino rejeitado rotulado
de problema social e menor abandonado
sobrevive - escura borra admitida
no doce vinho da expansão nacional.
Ah, que a cidade repouse, tranquila consciência
- é preciso evitar qualquer mudança brusca e qualquer agitação...
Que a borra do vinho permaneça assim depositada
afim de não turvar o aroma luminoso
o buquê, o paladar dos outros que o sorvem de lábios brandos,
dentes fortes e boca cheia de poder e de oração. Ah, sim, que
[é preciso também rezar pela família e pela ordem, pelo status e pela
marcha resoluta dos peenebês como também é preciso amar ao próximo bem próximo
ou ao mais distante órfão do vietnã.
É preciso amar seu semelhante, sim.
Mas, é claro, sempre há de haver pobres e ricos...
E quanto aos mais, que são todos comunistas
cumpre abominar com toda a raça
à farta mesa, entre a sopa e a sobremesa.
- A cidade navega o seu destino
multidões passantes com seus olhos de afogados
e cérebros em marcha reduzida.
Carne embrilhada em diversas embalagens
saias, calças, sapatos engraxados, suor, perfume, gravatas coloridas
atada pelos fios do tempo inexorável
- amarras retesadas, fabricadas por fuso horários de patrões computadores.
Essa polpa movediça, encaminhada
rebanho de apressados cachalotes está no cóvo
- farto campo de caçada onde miúdos, ágeis trombadinhas guerrilheiros
urbanos de sobrevivência
colhem da comunidade o seu sustento
- o que deveria ser seu por direito de inocência.

Poema by Cecília Alves Pinto - Livro: Reportagem Urbana - MG Editores


2 comentários:

Cenystro disse...

OTEMOOOOO TEXTO
Só faltou uma linda imagem para refletir o que o texto quer passar
^^

Mari Martins disse...

Dá próxima vez colocarei imagem, pode aguardar.
Beijos e até mais.