terça-feira, 5 de outubro de 2010

Poeta, poetinha camarada



A cidade antiga

Houve tempo em que a cidade tinha pêlo na axila
E em que os parques usavam cinto de castidade
As gaivotas do Pharoux não contavam em absoluto
Com a posterior invenção dos kamikazes
De resto, a metrópole era inexpugnável
Com Joãozinho da Lapa e Ataliba de Lara.

Houve tempo em que se dizia: LU-GO-LI-NA
U, loura; O, morena; I, ruiva; A, mulata!
Vogais! tônico para o cabelo da poesia
Já escrevi, certa vez, vossa triste balada
Entre os minuetos sutis do comércio imediato
As portadoras de êxtase e de permanganato!

Houve um tempo em que um morro era apenas um morro
E não um camelô de colete brilhante
Piscando intermitente o grito de socorro
Da livre concorrência: um pequeno gigante
Que nunca se curvava, ou somente nos dias
Em que o Melo Maluco praticava acrobacias.

Houve tempo em que se exclamava: Asfalto!
Em que se comentava: Verso livre! com receio...
Em que, para se mostrar, alguém dizia alto:
"Então às seis, sob a marquise do Passeio..."
Em que se ia ver a bem-amada sepulcral
Decompor o espectro de um sorvete na Paschoal

Houve tempo em que o amor era melancolia
E a tuberculose se chamava consumpção
De geométrico na cidade só existia
A palamenta dos ioles, de manhã...
Mas em compensação, que abundância de tudo!
Água, sonhos, marfim, nádegas, pão, veludo!

Houve tempo em que apareceu diante do espelho
A flapper cheia de it, a esfuziante miss
A boca em coração, a saia acima do joelho
Sempre a tremelicar os ombros e os quadris
Nos shimmies: a mulher moderna... Ó Nancy! Ó Nita!
Que vos transformastes em dízima infinita...

Houve tempo... e em verdade eu vos digo: havia tempo
Tempo para a peteca e tempo para o soneto
Tempo para trabalhar e para dar tempo ao tempo
Tempo para envelhecer sem ficar obsoleto...
Eis por que, para que volte o tempo, e o sonho, e a rima
Eu fiz, de humor irônico, esta poesia acima.

Poema by Vinícius de Moraes - http://www.viniciusdemoraes.com.br/
Foto by Google Imagens


3 comentários:

Beth Muniz disse...

Mari querida,
Marquei muitos encontros sob a marquise do Passeio... meu Rio de Janeiro.
Época dura.
Hoje não temos mais o poetinha e a praia de Itapuã não é mais a mesma.
Mas, nos resta os seu poemas e músicas.
Belas recordações...
Grande beijo.

Nat Biju disse...

Maravilha, muito linda adorei a poesia

Ricardo Roehe disse...

Lindo poema, postagem linda.
Minha amiga vi que soube o que esta acontecendo com minha família.
Se puder ajudar em divulgar em seu blog ficaria muito grato.
Repasse via e-mail o link do meu blog a seus contatos, pois só a mídia pode nos ajudar, conto com sua ajuda.
bijus no coração e muita Luz no seu caminho.