sábado, 28 de agosto de 2010

As palavras



As palavras são boas. As palavras são más.

 As palavras ofendem. As palavras pedem desculpas.

As palavras queimam. As palavras acariciam.

As palavras são dadas, trocadas, oferecidas,

vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes.

Algumas palavras sugam-nos, não nos largam...

As palavras aconselham, sugerem, insinuam,

ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas

ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas

com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios

de palavras que vivem em boa paz com as suas

contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o

contrário do que pensam, julgando pensar o

que fazem. Há muitas palavras. E há os

discursos, que são palavras encostadas

umas às outras, em equilíbrio instável graças

a uma precária sintaxe, até ao prego final do

Disse ou Tenho dito. Com discursos se comemora,

se inaugura, se abrem e fecham sessões, se

lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas

de veludo. São brindes, orações, palestras e

conferências. Pelos discursos se transmitem

louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E

depois as palavras dos discursos aparecem deitadas

em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por

essa via entram na imortalidade do Verbo. E as palavras

escorrem tão fluidas como o

"precioso líquido". Escorrem interminavelmente,

alagam o chão, sobem aos joelhos,

chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço.

É o dilúvio universal, um coro desafinado

que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu

caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos,

aos uivos, envoltos também num murmúrio manso,

represo e conciliador... E tudo isso atordoa as estrelas

e perturba as comunicações, como as tempestades

solares. Porque as palavras deixaram de comunicar.

Cada palavra é dita para que se não ouça outra

palavra. A palavra, mesmo quando não afirma,

afirma-se. A palavra não responde nem pergunta:

amassa. A palavra é a erva fresca e verde

que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira

nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra.

A palavra disfarça. Daí que seja urgente moldar

as palavras para que a sementeira se mude em

seara. Daí que as palavras sejam instrumento

de morte - ou de salvação. Daí que a palavra só valha

o que valer o silêncio do ato. Há também o silêncio.

O silêncio, por definição, é o que não se ouve.

O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa.

O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil,

o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar.

Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras.

As palavras boas e as más. O trigo e o joio.

Mas só o trigo dá pão.


Texto by José Saramago
Imagens by Google



3 comentários:

Pithan Pilchas disse...

Olá Mari,

José Saramago escreve muito bem, seus textos são ótimos.
Bju

Paulo

Jackie Freitas disse...

Mari, minha querida!
Saramago, sem dúvida, é um grande exemplo do poder do uso das palavras! Como tantos escritores, através delas, nos mostra o quanto de riqueza possuímos quando usamos bem as palavras!
Grande beijo e bom final de semana, amiga!
Jackie

Carlos Roberto de Oliveira disse...

Saramago foi um gênio, e nem a morte o pode calar. Seus textos são eternos!

Bela postagem!

Um grande abraço, Marinise...