segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Aos que vierem depois de nós

 

Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.


Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

Texto by Bertolt Brecht - www.releituras.com
Foto by Mari Martins - Praça do Pôr-do-sol/SP

 

4 comentários:

Beth Muniz disse...

Oi Mari,
Sabe, quando eu percebo que estou me perdendo em futilidades (o que é raro, mas acontece), recorro ao Brechet. Ele me faz fincar os pés no chão e beber da realidade...
Faz-me lembrar da dialética que move as relações sociais no mundo e da necessidade ardente de lutar, para que a indignação supere a injustiça.
Belo resgate. Adorei.
Ah, que bela foto...
Grande beijo.

Sissym disse...

A injustiça social viaja os anos, se hoje é demais, ontem tambem foi, onde tem alguem sofrendo, seja o que for, será terrível, porque o agora é urgente. Eu não tenho esperança na humanidade, só que não podemos deixar de lutar pelo certo, não podemos desistir para proteger os mais necessitados.

Luciana Penteado disse...

Esse texto é muito bom. É a segunda vez que leio e fico a refletir sobre "os que vierem depois de nós". Sabe-se lá até onde iremos para que eles continuem e também, não termos noção nenhuma do destino futuro...
Adorei! Beijos pra ti!

Jackie Freitas disse...

Olá Mari querida!
Excelente texto! Brecht tem mesmo esse dom de nos colocar em total senso de realidade. Tempos sombrios mesmo! Pena que para a maioria, nem na leitura (por não ter esse hábito) consiga enxergar tamanha e assombrosa realidade que vivemos.
Grande beijo,
Jackie