quinta-feira, 1 de julho de 2010

Venalidade

Conheço uma mercadoria ideal - que nunca desvaloriza.
Que sempre tem cotação nos mercados do mundo.
Que nunca esgota - por mais que se gaste.
Em tempo de paz, em tempo de guerra - sempre se vende a bom preço.
Vende-se e compra-se a peso de ouro - essa mercadoria ideal.
A consciência...
Vende-se hoje, a varejo - amanhã, por atacado.
À vista... em conta firme... Em consignação... a prazo... em prestações...
Contra duplicata... letra de câmbio... nota promissória... 
Aluga-se... subloca-se... dá-se de empréstimo...
Liquida-se... queima-se... torra-se periodicamente a preço reduzido...
Vende-se em hasta pública, ao correr do martelo do leiloeiro...
Dá-se até de presente - inteiramente de graça - por amizade e convenção social.
E (coisa espantosa!) por mais que se venda e revenda - está sempre à venda.
Sempre venal - a consciência humana...
Dá-se hoje, por dez cruzeiros - amanhã, por mil - logo mais, por um milhão de cruzeiros.
Dizem que o homem que vende a consciência é homem sem consciência.
Pois, se a vendeu, como é que a teria?
E, no entanto, está errado! Quem vende a consciência ilude o comprador, fingindo vender o que não tinha.
Vende cadáveres de consciência - não vende consciência viva.
Consciência viva não se pode vender.
Vende, como vende o açougueiro - mercador de carne morta...
Consciência a talho e retalho - consciência exangue e inerte...
Safra de consciências é período de crise...
Crise política e social, econômica e religiosa - prole numerosa de fecunda genitora.
Inventam os homens pretextos sem conta - para fugir à verdade...
Não querem conceder a sua falência moral...
Homem venal, homem falido - aos olhos de Deus e do próprio Eu...
Consciência em leilão!...
Dez cruzeiros por uma consciência! - Quem dá mais?...
Vinte cruzeiros por uma consciência de operário... de homem... de mulher - Quem dá mais?...
Dez mil cruzeiros por uma consciência de capitalista... de funcionário... de religioso - Quem dá mais?...
Um milhão de cruzeiros por uma consciência de Iscariotes!... Olhem que é pouco por uma legítima alma de traidor - Quem dá mais?...
Depois da milésima venda está a consciência tão gasta e exausta - que não resiste à milésima primeira traficância.
Enojada de si mesmo, nauseada da fétida chaga ambulante - precipita-se ao abismo eterno...
A consciência venal...

Texto by Huberto Rohden - Livro: De Alma para Alma - Editora Martin Claret

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