terça-feira, 27 de julho de 2010

Ser diferente


Diferente não é quem pretenda ser. Esse é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente.
Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errados para os outros que riem de inveja de não serem assim.
O diferente nunca é um chato. Mas é sempre confundido por pessoas menos sensíveis e avisadas. Supondo encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados; vitórias, adiadas..... Esperanças, mortas.
Um diferente medroso, este sim, acaba transformando-se num chato. Chato é um diferente que não vingou. Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os entendem.
Diferente que se preza entende o porquê de quem o agride.
O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer - alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores. O diferente suporta e digere a ira do irremediavelmente igual, a inveja do comum, o ódio do mediano.
O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.
O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais, de mãos dadas, e até mesmo alguns adultos, por omissão, se unem para transformar o que é potencial em caricatura. O que é percepção aguçada em: "puxa, fulano, COMO VOCÊ É COMPLICADO".
O que é o embrião de um estilo próprio em: "você não está vendo como todo mundo faz?"
O diferente carrega desde cedo apelidos que acaba incorporando. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram nos seus grandes modificadores.
Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber.
Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno, agridem e gargalham.
É o que engorda mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram. Quer onde outros cansam. Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria onde o hábito rotiniza. Sofre onde os outros ganham.
Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar.
Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo, excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas erradas, cheios de espinhas, de mumunha ou de malícia .
Arthur da Távola * Alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir e entender. E....nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são CAPAZES.

Texto by Arthur da Távola
Foto by Mari Martins - Pimenta
 

3 comentários:

Beth Muniz disse...

Oi Mar,
Não é fácil a vida dos rotulados de diferentes...
Mas, como é prazeiroso não ser igual, não pensar igual, não amar igual.
Ser igual é muito chato e descomplicado.
Grande Arthur da Távola. Gostei da lembrança.
Parabéns pelo resgate.
Um grande abraço.

Jackie Freitas disse...

Mari, minha querida!
Excelente texto, amiga!
Quando eu era mais nova era a diferente: dentuça, magrela, me chamavam de cdf, enfim, tinha muitos apelidos... Mas sempre tive a minha própria opinião sobre as coisas e nunca fui de me deixar levar pelos outros. Gosto de assumir a minha vida, então, se ser diferente é isso (também), me sinto muito bem! Acho que os diferentes acaba, ensinando muito mais aos "iguais" ou "normais" e no fundo, tenho comigo que eles adorariam poder serem chamados de diferentes também. A mesmice cansa!
Grande beijo, minha querida.
Jackie

Jucifer disse...

grande mensagem de Arthur Távola
ser tachado de diferente
as vezes é complicado
mas ser diferente
é ter luz própria
bjim guria