segunda-feira, 26 de julho de 2010

Afinidade

 

 A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil,
delicado e penetrante dos sentimentos.
E o mais independente.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,
as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade, qualquer reencontro
retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto
no exato ponto em que foi interrompido.

Afinidade é não haver tempo mediando a vida.
É uma vitória do adivinhado sobre o real.
Do subjetivo para o objetivo.
Do permanente sobre o passageiro.
Do básico sobre o superficial.

Ter afinidade é muito raro.
Mas quando existe não precisa de códigos
verbais para se manifestar.
Existia antes do conhecimento,
irradia durante e permanece depois que
as pessoas deixaram de estar juntas.
O que você tem dificuldade de expressar
a um não afim, sai simples e claro diante
de alguém com quem você tem afinidade.

Afinidade é ficar longe pensando parecido a
respeito dos mesmos fatos que impressionam comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavras.
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento

Afinidade é sentir com. Nem sentir contra,
nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo.
Quanta gente ama loucamente,
mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem para o ser amado,
não para eles próprios.

Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar, ou, quando falar,
jamais explicar: apenas afirmar.

Afinidade é jamais sentir por.
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar o lugar do outro.
Aceita para poder questionar.
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças.
É conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas,
quanto das impossibilidades vividas.

Afinidade é retomar a relação no ponto em que
parou sem lamentar o tempo de separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida,
para que a maturação comum pudesse se dar.
E para que cada pessoa pudesse e possa ser,
cada vez mais a expressão do outro sob a
 forma ampliada do eu individual aprimora

Poema by Arthur da Távola 
    Foto by Mari Martins - Andorinhas   

do.

3 comentários:

Cecília disse...

Mari,como os textos do Arthur da Távola,são admiráveis.Nunca me decepcionei com um sequer.Que pena termos perdido ele;gostava do programa de música clássica que ele apresentava.A afinidade é algo que une as almas!Pode passar o tempo que for.
Bjos

Jackie Freitas disse...

Mari, minha linda!
Simplesmente lindo e maravilhoso esse poema! Adorei tudo e li e reli com atenção! Me identifiquei com cada palavra e destaco: "Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo. É olhar e perceber.
É mais calar do que falar, ou, quando falar, jamais explicar: apenas afirmar."...
Adorei, amiga! Foi muito bom ter lido isso! De verdade!
Grande beijo, querida e parabéns pela escolha! Ahhh...a foto é linda e li que é sua obra! Poxa! Maravilhoso, hein?
Jackie

Niels Apple disse...

"Afinidade é retomar a relação no ponto em que
parou sem lamentar o tempo de separação."
Vou levar essa comigo...
Excelente blog,
bjão