sábado, 17 de julho de 2010

Girassol




O meu olhar é nítido como um girassol. 
Tenho o costume de andar pelas estradas 
Olhando para a direita e para a esquerda, 
E de vez em quando olhando para trás... 
E o que vejo a cada momento 
É aquilo que nunca antes eu tinha visto, 
E eu sei dar por isso muito bem... 
Sei ter o pasmo essencial 
Que tem uma criança se, ao nascer, 
Reparasse que nascera deveras... 
Sinto-me nascido a cada momento 
Para a eterna novidade do Mundo... 
  Creio no mundo como num malmequer, 
Porque o vejo. Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender... 
  O Mundo não se fez para pensarmos nele 
(Pensar é estar doente dos olhos) 
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... 
  Eu não tenho filosofia; tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque a amo, e amo-a por isso 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem sabe por que ama, nem o que é amar... 
  Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914
Foto by Mari Martins

2 comentários:

Cecília disse...

Mari,nos presenteaste com um lindo texto.Adorei a sensibilidade.
Bjos

Principe Encantado disse...

Sensacional nota10 belíssimo
"Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar... "
Uma ótima semana
Abraços forte