quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Filosofando no Atemporal




Somos diferentes
Pais e filhos idealizam o aconchego da semelhança, mas é preciso aprender que diferença não é desigualdade.

Mães e filhas são sempre muito parecidas como peixes e seus filhotes: eu e minha filha, por exemplo. Só que ela é mais bonita e desenha melhor que eu. Talvez continuemos cada vez mais iguais, sobretudo se pensarmos nas nossas coincidências astrológicas e confiarmos na evolução dos mesmos gostos pelo desenho, pelos livros, por ficar em casa em plena vida contemplativa.

Porém, toda regra só é regra porque existem as exceções. O igual só é igual porque existe o diferente. E vice-versa. Sobre o futuro das semelhanças nunca é possível fazer muitas apostas. No caso dos pais de filhos pequenos, tem-se pela frente a adolescência - que modifica, em geral, toda a vida de uma pessoa. Este tempo trará a força das diferenças que devem ser elaboradas, sobretudo no que se refere ao comportamento, à moral, à sexualidade. O que ainda não conhecemos dos nossos filhos - a diferença - deverá ser o novo encanto do nosso encontro.

Não podemos sustentar que o futuro de nossos filhos seja a nossa continuação. O futuro que esperamos para eles precisa ter o nome da diferença entre o que somos e o que eles serão. A diferença sempre se elabora no tempo. As mães mais típicas esperam que a vida de suas filhas seja melhor: que sejam mais bonitas, tenham o sucesso, realização profissional, que estabeleçam relações matrimoniais mais justas, sejam felizes no amor, que possam escolher e decidir sobre seus destinos. Querem que as filhas sejam mais felizes. Mas devem saber que isso implica mudanças no modo de vida que conheceram. Que terão de aprender a olhar para outro mundo. Mas, no fundo, o que desejamos é ser iguais.

Ao contemplar imagens de famílias animais, muitas vezes temos a sensação de que com os humanos ocorre o mesmo mimetismo da natureza. Esse sentimento toca principalmente mães e crianças, pois é entre mães e seus filhos que o desejo de unidade é corpóreo e primitivo. A mãe, no seu sentido mais comum, é aquela que quer aconchegar. Por isso ela dá alimento, colo e carinho. A mãe é corpo. Ela é a primeira manifestação do mimetismo humano, o da proximidade sem a qual não nos tornamos pessoas capazes de uma vida boa e justa.

Temos a sensação muito agradável que uma girafa e a girafinha, a ursa e seu ursinho, a vaca e seu bezerro correspondem a um ideal humano. Lembremos o filme sobre o pinguim imperador, cuja abordagem humanizava os animais. Os pinguins não sabiam nada sobre "ser ou não ser" humanos, mas os humanos sentem um radical desejo de projetar na natureza seus sentimentos. O filme, na visão do diretor, mostrava como queríamos ser como os pinguins. Estes eram como familiares. O que ele esqueceu de dizer é que projetamos na natureza o desejo de continuarmos participando dela e que ela seja o nosso verdadeiro ideal. O nosso desejo de ser igual ao outro, à natureza, equivale a querer o colo da nossa mãe.

A capacidade de nos tornarmos iguais nos move. O segundo mimetismo humano é evidente na moda, ideais e princípios que compartilhamos. A democracia é o nome político do mimetismo. É uma vontade de proteção, mas também de mistura, que adquirimos no colo da mãe. Mas é preciso atingir o respeito à diferença e entender que ela não é desigualdade no sentido político dos direitos. Depois do colo, todo mundo aprende a andar sozinho. O colo vira uma lembrança que queremos atualizar com amigos e amores, mas também com a nossa profissão, nossos projetos. A gente acaba sempre em busca do paraíso perdido que era o colo da nossa mãe.

Texto by Márcia Tiburi - www.marciatiburi.com.br
Foto by Mari Martins


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