terça-feira, 26 de julho de 2011

A Imaginação



Para longe os raciocínios perfeitos e os homens imutáveis! Cada erro de lógica pode ser um tento que a imaginação ganhe, e a imaginação é o sal da vida. Imaginação, cavalo de asas, sacode as crinas e dispara por aí afora; o espaço é infinito. Tu, poesia, trepa-lhe aos flancos, que o espaço, além de infinito, é azul.
A imaginação perdia-me; a luta do dever e da imaginação é cruel e perigosa para os espíritos fracos.
Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus.
A imaginação era o seu lado fraco, porque não a tinha criadora e límpida, mas vaga, tumultuosa e estéril, dessa que dá ao escrito a indecisão dos contornos, e à vida a confusão dos atos.
Não é só o coração que lhe fala, é também a imaginação, e a imaginação, se é boa amiga, tem seus dias de infidelidade. Dê um pouco de poesia à vida, mas não caia no romanesco; o romanesco é pérfido.
A imaginação evocativa era a grande prenda desse homem, que sabia dar vida às coisas extintas e realidade às inventadas.

Foto by Mari Martins - Mirante da Enseada - Ubatuba
Texto retirado do livro: Machado de Assis - Memórias de um Frasista - Angela Canuto


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