segunda-feira, 9 de maio de 2011

Entre tubarões e sardinhas



"Se você quer ser sardinha, ande com sardinhas; se quer ser tubarão,
ande com tubarões"

Essa frase do Dr. Edson de Godoy Bueno, proprietário da Amil Saúde, tem causado muito impacto no meio médico. Há quem tenha se ofendido profundamente, principalmente seus colaboradores.
Hoje eu quero postar uma matéria que li no Jornal do Cremesp, que eu considero uma pérola de resposta para a tal famosa frase. O texto a que me refiro é do Dr. Renato Françoso Filho, que é representante do Estado de São Paulo no Conselho Federal de Medicina.

O texto na íntegra:

Não sou contra o cidadão ficar rico. Muito pelo contrário. Penso que ser bem remunerado deve ser consequente à competência com se exerce um trabalho. Não há nenhum mal em crescer, gerar empregos, prestar serviços e também obter lucros. O problema está na forma como os lucros, especialmente no setor da Saúde, são obtidos, e nos limites éticos que devem ser observados nesse enriquecimento. Não há aqui nenhuma pretensa discussão ideológica e nem julgamento de caráter. Apenas observações à nossa reflexão.
A revista Exame, de 26 de janeiro de 2011, publicou matéria de capa relatando a história do fundador da Amil, Dr. Edson de Godoy Bueno, com um título deveras sugestivo: "O bilionário da saúde". São dez páginas de reportagem, na qual é relatada sua história familiar, da fundação da empresa na cidade de Duque de Caxias na Baixada Fluminense, onde trabalhava, em 1978, até os momentos atuais, quando detém o primeiro lugar no ranking das empresas de saúde, incorporando os laboratórios Dasa e a Amil.
Dr. Edson utiliza algumas frases nessa matéria que são emblemáticas e, de alguma forma, explicam o seu sucesso: "gosto de puxar os saco dos meus funcionários"; "se você é miserável, nada prospera"; "se você quer ser sardinha, ande com sardinhas; se quer ser tubarões, ande com tubarões".
Hoje a Amil, segundo a revista, é a maior empresa de plano de saúde do país, com 5 milhões de beneficiários e faturamento de R$ 7,5 bilhões, tornando seu fundador um dos maiores empresários de saúde do mundo, com participação pessoal estimada de R$ 6 bilhões.
Interessante é que a Associação Paulista de Medicina encomendou ao Instituto DataFolha pesquisa para conhecer o que pensam os médicos sobre os planos de saúde e o grau de satisfação com esse relacionamento. Esse estudo foi realizado na Capital e no interior do Estado de São Paulo, no período de 23 de junho a 18 de agosto de 2010. Questões como glosas, auditorias e remuneração foram avaliadas pelos médicos que atendem os planos de saúde.
Os médicos conferiram nota 4,7 a estas empresas de planos de saúde na avaliação final, sendo que a Medial (do gRupo Amil), a Intermédica e a Amil foram consideradas pelos médicos as três piores. No quesito honorários médicos, temos essa mesma ordem de avaliação negativa.
Aqui está o grande problema da medicina suplementar. Os empresários, cada vez mais ricos, posando de bilionários, exibindo sua nababesca riqueza, enquanto nós, médicos, e profissionais da saúde amargamos o maior arrocho da história em nossas parcas remunerações. Além de sermos policiados na nossa atividade técnica, com excessiva burocracia e limitações, somos aviltados, servidos com as migalhas que se esvaem dos banquestes servidos à mesa dos donos da medicina suplementar.
Vamos nos acabando, trabalhando de 14 a 16 horas por dia, para receber honorários muito abaixo da linha da dignidade, enquanto os empresários se utilizam de nosso conhecimento e compromisso ético para enriquecer seus cofres.
Como disse, nada contra enriquecer. O problema é como se constrói essa riqueza. Na área da saúde, não pairam muitas dúvidas sobre quem são as sardinhas e quem são os tubarões. E, de verdade, penso que não estamos gostando nem um pouco de ser tratados como sardinhas.

Imagem by Google
Fonte: Jornal do Cremesp - Coluna dos conselheiros do CFM


Um comentário:

Beth Muniz disse...

Querida,
Louvável a posição do Conselho, em São Pulo.
Ótimo texto.
Parabéns por compartilhar.
Beijão.