sábado, 7 de junho de 2014

Uma revolução na telenovela




A telenovela Beto Rockfeller foi considerada revolucionária já na época em que foi exibida pela extinta TV Tupi, entre 1968 e 1969. Num tempo em que a teledramaturgia se apoiava em dramalhões anacrônicos e quase totalmente gravados em estúdio, a narrativa escrita por Bráulio Pedroso e dirigida por Lima Duarte trazia uma ambientação contemporânea e urbana, um anti-herói malandro e alpinista social, imagens externas, improvisação dos atores, comportamentos rebeldes e um tom de ironia.


Quase tudo era novo, incluindo o primeiro caso, também improvisado e casual, de merchandising. É conhecida a história que envolveu o ator que representava o personagem-título, Luis Gustavo, e a marca de remédio Engov, contra a indigestão e a ressaca. Segundo ele, o acordo de incluir cenas explícitas da marca era um modo de compensar os atrasos de salário comuns na TV Tupi, que, apesar de líder de audiência, era cronicamente mal gerida.
Para Esther Hamburger, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), o merchandising do remédio pode ser considerado uma indicação da presença, na novela, de uma sensibilidade maior em relação a um estilo de vida e a um estágio de modernidade que marcaram a época em que foi produzida. É um elemento que, segundo ela, não estava tão claro no momento da transmissão de Beto Rockfeller e foi observado durante a recuperação e digitalização de seus sete capítulos sobreviventes.
“Esse tipo de merchandising, tal como a exibição de moda, cigarro, uísque, telefones ou motocicletas, constitui uma via de acesso dos espectadores ao universo dos personagens”, diz Esther. “É como se, ao adotar acessórios sugeridos pelos personagens, os espectadores compartilhassem seu posicionamento no mundo.”
Esther esteve à frente do trabalho que se iniciou em 2009, a partir da publicação pela FAPESP de um edital de digitalização, preservação e organização de arquivos. As fitas VHS da teledramaturgia da Tupi estavam na sede da Cinemateca Brasileira, em São Paulo, depois de um périplo por vários órgãos públicos, à espera de condições técnicas adequadas à sua preservação.
O projeto terminou com a digitalização das 100 horas de material previstas no projeto, mas ainda há cerca de 3 mil aguardando tratamento nos arquivos da Cinemateca. O que havia de Beto Rockfeller, no entanto, já está resguardado.
“O trabalho foi muito mais demorado do que a gente esperava”, diz Esther. A recuperação dos arquivos dependeu da aquisição de uma ilha de edição Quadruplex, o primeiro formato de vídeo usado pela televisão, criado em 1956. Anteriormente, os telejornais da TV Tupi, gravados em película, já haviam sido digitalizados por meio de outro projeto, parceria da Cinemateca com o Ministério da Justiça. Tanto os arquivos de telenovelas quanto os de jornalismo estão disponíveis no Banco de Conteúdos Culturais, site da Cinemateca Brasileira.
Todos esses trabalhos aconteceram num contexto novo, em que os arquivos televisivos começam a ser valorizados. Por questões legais relativas a direitos autorais e um antigo desprezo acadêmico pela produção televisiva como produto cultural, grande parte dos arquivos das primeiras décadas da televisão brasileira se perdeu. As próprias emissoras tinham o hábito de reutilizar as fitas de vídeo, além de descuidarem de sua manutenção. “Não existia a cultura de preservação da TV no Brasil, ao contrário do que aconteceu em países da Europa, cujos acervos normalmente estão disponíveis em bibliotecas nacionais, com direitos autorais garantidos”, diz Esther.
A pesquisadora se deteve nos capítulos restantes de Beto Rockfeller, que, por revelar vários aspectos inovadores no tema e na forma, mostra as muitas possibilidades de abordagem dos arquivos televisivos. Em seu estudo sobre Beto Rockfeller, Esther foi buscar um contraponto nas pesquisas mais recentes sobre o “primeiro cinema”, que revelam a arte da tela grande como um elemento constituinte da modernidade já em seu surgimento, com a presença frequente de máquinas, velocidade e movimento urbano, enquanto a teoria tradicional só identificava a presença moderna nos filmes feitos a partir dos anos 1960.
“O cinema é moderno por excelência e é parte da modernidade”, diz. “No Brasil, nunca houve propriamente uma indústria do cinema, mas houve uma indústria televisiva. A TV é parte do processo de modernização, não apenas uma representação de um determinado momento histórico.”

Fonte: Agência Fapesp


Nenhum comentário: