segunda-feira, 16 de junho de 2014

Instituições hospitalares estão adotando a política dos 3Rs: reduzir, reutilizar e reciclar

Não basta cuidar da saúde, tem de ser saudável
Aureliano Biancarelli*


Apesar de as primeiras iniciativas do movimento Hospitais Saudáveis – que busca reduzir os efeitos provocados pelas instituições de saúde no meio ambiente – existirem há cerca de duas décadas, “só agora esse setor tem uma proposta própria para minimizar os seus danos”, diz Vital Ribeiro, presidente do conselho do Projeto Hospitais Saudáveis (PHS) e representante da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Nos últimos anos, um número cada vez maior de instituições hospitalares aderiu ao movimento, fortalecido, em 2010, pela criação do PHS, que representa a coalizão internacional Saúde Sem Dano (SSD), iniciada há 20 anos. No final de 2011, foi lançada a Agenda Global Hospitais Verdes e Saudáveis, um guia de ações para reduzir impactos ambientais do setor da saúde no mundo todo. O propósito desse conjunto de ações é debater e compartilhar experiências em gestão sustentável de sistemas e serviços, que sejam exemplares em termos de proteção à saúde e ao meio ambiente.

No Brasil, fazem parte do Projeto Hospitais Saudáveis cerca de 100 organizações – entre hospitais, ambulatórios e outros serviços de saúde –, seis sistemas de saúde e mais de 300 membros integrantes como pessoas físicas. Desde 2008, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo promove o prêmio Amigo do Meio Ambiente, incentivando iniciativas de instituições que trabalham com o Sistema Único de Saúde (SUS). Também naquele ano, iniciou-se a série de Seminários Hospitais Saudáveis, que já está na 7º edição.

Muitas instituições de saúde criaram núcleos de gestão ambiental e até departamentos voltados para essa questão. O leque de preocupações vem se ampliando no mundo todo, abraçando desafios que vão além da reciclagem e economia de energia, incluindo redução do grau de toxicidade e riscos nos procedimentos dentro do hospital.

Entre os temas, estão também programas de alimentação e processos de compras e de transporte “limpos”, itens lembrados pela Agenda Global entre seus dez focos. “Não adianta fazer bons negócios se o produto é fruto de exploração da mão de obra”, diz Ribeiro. O transporte, por sua vez, mata pelos acidentes e pela poluição, e os hospitais e profissionais de saúde ainda são “passivos” diante desses danos. Não se pensa nas causas, nem há participação nas políticas públicas, nas práticas e hábitos da população. Em municípios de pequeno e médio portes, por exemplo, os secretários de Saúde poderiam participar do debate sobre transporte público e urbanização, planejando o futuro dessas cidades.

Ambientalistas
A Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), vinculada à Unifesp, tem uma equipe de seis profissionais focados exclusivamente na questão ambiental. A meta, no médio prazo, é um técnico ambiental para cada uma das suas 11 unidades hospitalares. Além desses hospitais, a SPDM gerencia, como Organização Social (OS), 29 ambulatórios em várias cidades. Há iniciativas tão diversas como a do Hospital de Juruti, junto ao rio Amazonas – que tem, entre seus programas, o gerenciamento de resíduos e o tratamento de efluentes – e a do Hospital Geral de Pirajussara, em São Paulo, que reaproveita como artesanato os frascos usados em exames de contrastes na Radiologia.

Atividades de educação ambiental dentro do Pirajussara começaram ainda em 1999. Em 2008, um engenheiro ambiental foi contratado para coordenar todas as ações de meio ambiente da SPDM. “Essa preocupação faz parte da filosofia do superintendente Nacime Mansur”, diz Jonas Ages Saide Schwartzman, engenheiro ambiental da SPDM. Entre as iniciativas da associação, está a parceria na realização dos seminários anuais Hospitais Saudáveis, e a adesão de todas as unidades à Agenda Global.

A Associação Santa Marcelina criou uma certificação ambiental interna de forma a estabelecer critérios e compromissos de gestão em todas as suas unidades. A rede tem um hospital próprio – o de Itaquera, com 700 leitos – e administra três outros em forma de OS, além de 92 unidades de atenção básica na Capital e Grande São Paulo. A certificação tem uma graduação de etapas que corresponde ao crescimento de uma árvore, começando com o selo “semente”, depois “broto”, “muda”, “arvoredo” e “sustentabilidade”. “Hoje, o selo ambiental é uma realidade em todas as unidades, dos hospitais até as AMAs”, diz Leonardo Diniz, coordenador de Gestão Ambiental do Santa Marcelina.

Na sua agenda de gestão ambiental, o hospital trata dos danos que gera durante seus processos. Numa segunda iniciativa, faz a promoção da saúde ambiental. “Articulamos desde o plantio de árvores com o município até a promoção de hábitos de vida saudáveis, como passeios ciclísticos e caminhadas”. O Santa Marcelina criou um borboletário no campus de sua faculdade (Fafism), em Muriaé, na zona da Mata Mineira. A proposta, além de contribuir para o aumento da biodiversidade, é sensibilizar alunos e moradores da região para a importância da preservação ambiental.


Redução de resíduos
Um dos propósitos dessa nova preocupação ambiental é a política dos 3 Rs, praticada no gerenciamento de resíduos e expressa nas ações “reduzir”, “reutilizar” e “reciclar”. Reduzir é evitar a produção de resíduos, com a mudança de hábitos ou adoção de novas práticas.

Muitos casos apresentados à Rede Global de Hospitais Verdes e Saudáveis, em 2013, ilustram essa prática. O Albert Einstein, por exemplo, vem implantando, desde 2012, ações para reduzir as embalagens de fio de sutura. O hospital passou a substituir as de papelão por caixas plásticas, que são retornáveis depois de higienizadas. A medida reduziu em 12 toneladas o consumo de embalagens, poupando matéria-prima e economizando R$ 20 mil na coleta e destinação de recicláveis, só no primeiro ano.

Lixoduto do Sírio-Libanês: sistema a vácuo transportará resíduos e roupas usadas


Ainda em 2012, o uso de caixas retornáveis foi ampliado para materiais utilizados nas cirurgias de videolaparoscopia e, no ano passado, as áreas de Meio Ambiente e a de Suprimentos começaram a discutir com fornecedores a adoção de embalagens reutilizáveis para diversos produtos.

“Hospitais verdes”
Na busca de tecnologias que se aplicam já na construção do prédio, os hospitais buscam recuperar o tempo e o atraso perdidos nas questões ambientais. São os chamados “edifícios verdes”. Segundo o Projeto Hospitais Saudáveis, há pelos menos quatro grandes instituições hospitalares, apenas na região da avenida Paulista, na cidade de São Paulo, construindo suas torres segundo os padrões Leed (Leadership in Energy and Environmental Design). Trata-se de uma certificação de sustentabilidade e redução do impacto ambiental das construções conhecidas como “edifícios verdes”. Ao pensar o hospital antes de sua construção, reduzem-se os gastos com água e energia e se racionalizam espaços para deslocamentos de pacientes e profissionais, e mesmo a distribuição de materiais e coleta de resíduos. Entre os novos “hospitais verdes” estão obras do Sírio-Libanês, Albert Einstein, Oswaldo Cruz e Samaritano, além de públicos, como o Icesp e o Hospital das Clínicas da USP, entre outras. A preocupação também aparece em operadoras de planos de saúde, como a Amil e a Unimed.

Artesanato do Hospital Pirajussara

Nas três novas torres do Sírio, que serão inauguradas entre 2015 e 2016, além do emprego de novas tecnologias que reduzem o consumo de água e energia, e racionalizam os espaços, o hospital será pioneiro no “transporte” do lixo hospitalar e roupas sujas. “O Lixoduto é um sistema inovador a vácuo que transporta resíduos e roupas usadas por dutos pneumáticos, eliminando boa parte do risco operacional e reduzindo os ocupacionais e de infecção hospitalar”, diz Flavio Alvares, coordenador de sustentabilidade do Sírio Libanês. “Com isso, aumentamos o conforto e reduzimos o contato humano na separação e embalagem do resíduo. Será o primeiro hospital do país a adotar essa tecnologia.”

Na lista de iniciativas ambientais, o Sírio mantém um programa de compostagem de resí­duos orgânicos. São cerca de 700 toneladas por ano que deixam de ir para aterros sanitários e se transformam em composto orgânico. Outro programa é a “fábrica verde”, que reúne cooperativas e catadores da comunidade, capacitando pessoas para transformar o resíduo em produtos que possam ser consumidos dentro do hospital. Um exemplo são sacolas entregues a cerca de 2 mil pacientes internados por mês, usadas para a guarda de exames e atestados, e construídas por 14 artesãos.

Nada se perde
A Fundação Amaral Carvalho, de Jaú, no interior de São Paulo, há 10 anos tem programa de coleta e separação de sucatas. Um depósito de patrimônio recebe todos os equipamentos, móveis e utensílios que não estão mais em uso no hospital, muitos deles em bom estado, substituídos por novas tecnologias. “Doamos esses equipamentos para instituições de saúde da região e, juntos, avaliamos a viabilidade de uso. Se não houver interesse, oferecemos a fornecedores que queiram comprar, ou fazemos a desmontagem, separando os diferentes metais”, diz Eduardo Tadeu Guedes Piragino, diretor de logística e apoio da Fundação Hospital Amaral Carvalho.

O dinheiro arrecadado é repassado para a entidade de voluntários Ana Marcelina Carvalho – vinculada à fundação que administra o hospital –, responsável pela assistência a pacientes carentes em tratamento. O hospital, que completa 100 anos em 2015, tem 310 leitos e recebe cerca de 80 mil pacientes anualmente, sobretudo oncológicos. No ano passado, a Fundação instituiu um Departamento de Meio Ambiente e Sustentabilidade visando ações de melhor qualidade. A arrecadação com a venda de sucatas atingiu R$ 35.447 contra R$ 10 mil no ano anterior. Entre 2008 e 2012, o número de atendimentos e procedimentos aumentou 39%, enquanto o gasto com energia cresceu só 17%.

Plantar e comer
No projeto “Mãos à Horta”, os adolescentes não só pegam na enxada para cuidar da terra, mas aprendem sobretudo a preparar receitas com os produtos plantados por eles próprios. As oficinas passam informações sobre nutrição, higiene e manipulação dos alimentos, estimulam a ingestão de legumes e verduras, promovendo ao mesmo tempo a socialização. O projeto é realizado pela Casa do Adolescente de Heliópolis e foi uma das 15 iniciativas escolhidas pelo prêmio Amigos do Meio Ambiente, de 2013. Foram apresentados cerca de 70 projetos de instituições relacionadas ao SUS, em todo o País.

Outro prêmio foi dado para o Laboratório de Análises Clínicas do Hospital e Maternidade Celso Pierro, da PUC de Campinas. O sistema construído permite tratar os efluentes químicos gerados pelo laboratório antes de descartá-los na rede de esgoto, com menor consumo de insumos e consequente redução de custo. O processo permite a descaracterização química dos resíduos, transformando-os em gás carbônico, água e material inerte.

Mercúrio
Usado às centenas nos hospitais e clínicas, o aparentemente inofensivo termômetro esconde uma das substâncias mais danosas para o meio ambiente e à saúde das pessoas. Trata-se do mercúrio metálico, em forma líquida, de cor prateada, que se transforma em vapor à temperatura ambiente. Desde 2002, a Organização Mundial da Saúde (OMS) mantém o programa Mercury Free Health Care – ou Saúde sem Mercúrio – em parceria com a rede Saúde sem Dano. No Brasil, a campanha é conduzida pela ONG Hospitais Saudáveis, que rea­liza vários seminários em todo o país e oferece material informativo em seu site.

Em 2010, a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo proibiu o uso de dispositivos com mercúrio em todas as suas unidades, próprias ou gerenciadas por terceiros. Em outubro passado, o Brasil, junto a mais de 120 países, aprovou um tratado internacional, promovido pela ONU, que prevê a eliminação dos dispositivos com mercúrio em hospitais até 2020. “A substituição do termômetro de mercúrio pelo digital é fácil, sem custo adicional e tem durabilidade maior, mas o desconhecimento do risco dificulta as mudanças”, diz Vital Ribeiro.

O termômetro só traz risco quando é quebrado ou descartado, o que infelizmente acontece com grande frequência. Nesses casos, o mercúrio liberado penetra até mesmo nos pisos mais resistentes e exala vapor. Extremamente tóxica, a substância permanece no ar das enfermarias, “renovada” pelo ar condicionado. A exposição a níveis elevados de mercúrio pode afetar o cérebro, o coração, os rins e pulmões, além do sistema imune dos seres humanos. Como não se degrada, ele não desaparece nunca, entrando na cadeia alimentar e contaminando, pelas chuvas, os rios e os mares, ou atingindo a rede de esgoto.

Não se justifica mais a presença do mercúrio nas instituições de saúde, mas os termômetros continuam sendo a principal fonte urbana desse metal. A Associação Hospitais Saudáveis fez as contas e constatou que as instituições compram em média de 10 a 20 termômetros por leito, por ano. Um hospital de 500 leitos, por exemplo, utilizaria de 5 mil a 10 mil novos termômetros por ano, o que significa dezenas desses aparelhos quebrados ou descartados por dia.

 


As dez metas da Agenda Global

1. Liderança
Priorizar a saúde ambiental

2. Substâncias químicas
Substituir substâncias perigosas por alternativas mais seguras

3. Resíduos
Reduzir, tratar e dispor de forma segura os resíduos de serviços de saúde

4. Energia
Implementar eficiência energética e geração de energia limpa renovável

5. Água
Reduzir o consumo de água e fornecer água potável
6. Transporte
Melhorar as estratégias de transporte para pacientes e funcionários

7. Alimentos
Comprar e oferecer alimentos saudáveis e cultivados de forma sustentável

8. Produtos farmacêuticos
Prescrição apropriada, administração segura e destinação correta

9. Edifícios
Apoiar projetos e construções de hospitais verdes e saudáveis

10. Compras
Comprar produtos e materiais mais seguros e sustentáveis

*Jornalista especializado em Saúde
Fonte: Revista Ser Médico nº 67


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