quinta-feira, 23 de maio de 2013

Mar absoluto





Foi desde sempre o mar, 
E multidões passadas me empurravam 
como o barco esquecido. 

Agora recordo que falavam 
da revolta dos ventos, 
de linhos, de cordas, de ferros, 
de sereias dadas à costa. 

E o rosto de meus avós estava caído 
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas, 
e pelos mares do Norte, duros de gelo. 

Então, é comigo que falam, 
sou eu que devo ir. 
Porque não há ninguém, 
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos. 

E tenho de procurar meus tios remotos afogados. 
Tenho de levar-lhes redes de rezas, 
campos convertidos em velas, 
barcas sobrenaturais 
com peixes mensageiros 
e cantos náuticos. 

E fico tonta. 
acordada de repente nas praias tumultuosas. 
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos. 
"Para adiante! Pelo mar largo! 
Livrando o corpo da lição da areia! 
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!" 
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas. 
A solidez da terra, monótona, 
parece-mos fraca ilusão. 
Queremos a ilusão grande do mar, 
multiplicada em suas malhas de perigo. 

Queremos a sua solidão robusta, 
uma solidão para todos os lados, 
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo, 
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia. 

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto, 
que os homens sentem, seduzidos e medrosos. 

O mar é só mar, desprovido de apegos, 
matando-se e recuperando-se, 
correndo como um touro azul por sua própria sombra, 
e arremetendo com bravura contra ninguém, 
e sendo depois a pura sombra de si mesmo, 
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício. 

Não precisa do destino fixo da terra, 
ele que, ao mesmo tempo, 
é o dançarino e a sua dança. 

Tem um reino de metamorfose, para experiência: 
seu corpo é o seu próprio jogo, 
e sua eternidade lúdica 
não apenas gratuita: mas perfeita. 

Baralha seus altos contrastes: 
cavalo, épico, anêmona suave, 
entrega-se todos, despreza ritmo 
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si, 
da sua terminante grandeza despojada. 

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões: 
água de todas as possibilidades, 
mas sem fraqueza nenhuma. 

E assim como água fala-me. 
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz, 
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino. 

Não me chama para que siga por cima dele, 
nem por dentro de si: 
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom. 
Não me quer arrastar como meus tios outrora, 
nem lentamente conduzida. 
como meus avós, de serenos olhos certeiros. 

Aceita-me apenas convertida em sua natureza: 
plástica, fluida, disponível, 
igual a ele, em constante solilóquio, 
sem exigências de princípio e fim, 
desprendida de terra e céu. 

E eu, que viera cautelosa, 
por procurar gente passada, 
suspeito que me enganei, 
que há outras ordens, que não foram ouvidas; 
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos, 
e o mar a que me mandam não é apenas este mar. 

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças, 
mas outro, que se parece com ele 
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos. 
E entre água e estrela estudo a solidão. 

E recordo minha herança de cordas e âncoras, 
e encontro tudo sobre-humano. 
E este mar visível levanta para mim 
uma face espantosa. 

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso. 
E é logo uma pequena concha fervilhante, 
nódoa líquida e instável, 
célula azul sumindo-se 
no reino de um outro mar: 
ah! do Mar Absoluto. 


Poema by Cecília Meireles
Foto by Mari Martins



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