quinta-feira, 8 de maio de 2014

Cientistas brasileiros e o Nobel

                           Por que Carlos Chagas não recebeu o Prêmio Nobel?                         






“Devem ser sinuosos os caminhos que levam à indicação de um cientista para receber prêmio de qualquer natureza, envolvendo, além do valor científico, muitos outros aspectos que nos escapam”

José Alberto Mello de Oliveira*
Carlos Chagas (1878-1934) merecia o Prêmio Nobel por sua tripla descoberta: uma nova doença humana, o agente etiológico (ao qual denominou Trypanosoma cruzi, em homenagem ao mestre Oswaldo Cruz) e o inseto transmissor popularmente conhecido como “barbeiro”. Essa façanha inédita nos anais médicos – descobrir uma doença e seu ciclo completo – é orgulho da ciência brasileira. Contudo, apesar de muitos prêmios internacionais, não recebeu a láurea máxima, o Nobel, o que é surpreendente e intrigante. Por quê?


A questão foi levantada em 1999, na comemoração do noventenário da descoberta, pelo pesquisador da Fiocruz João Carlos Pinto Dias, informado pelo historiador argentino J. P. Sierra Iglesias, que, segundo Naftale Katz, reportou notícia dada pelo professor uruguaio Rodolf Talice, sugerindo que a indicação de Carlos Chagas teria sido boicotada por pares brasileiros consultados, na época, pela Comissão do Nobel. Pinto Dias, em colaboração com Marília Coutinho, escreveu vários artigos sobre o assunto, chamando a atenção para a disputa havida na Academia Nacional de Medicina (ANM) entre Chagas, Afrânio Peixoto e outros, clamando contra a injustiça sofrida pelo grande cientista brasileiro, e cobrando a reconsideração a posteriori. Nesse mesmo sentido, Reynaldo B. Bestetti e colaboradores defenderam, em 2009 – ano do centenário da tripla descoberta de Chagas – que é chegada a hora de fazer justiça. Segundo Marília Coutinho, o cientista foi indicado ao Nobel quatro vezes, duas delas oficialmente. Em 1913, por Pirajá da Silva (descobridor da esquistossomose no Brasil), e, em 1921, pelo oftalmologista mineiro Hilário Soares Gouveia. Ressalte-se que, em 1921, não houve laureado do Nobel de Medicina.

Naftale Katz, da Academia Mineira de Medicina, do Instituto Mineiro de História da Medicina e do Centro de Pesquisas René Rachou/Fiocruz de Belo Horizonte, descreve no artigo “Carlos Chagas não recebeu o Prêmio Nobel” o ambiente de disputa entre membros da ANM, que deu origem a um relatório favorável a Carlos Chagas, apresentado na sessão de 6 de dezembro de 1923. Chama a atenção para o fato de que não existe nas atas da ANM, de 1921, referência à consulta vinda da Comissão do Nobel sobre a indicação, ainda que o presidente da Academia fosse naquele ano nada menos que o professor Miguel Couto, admirador de Chagas, que não deixaria tal consulta passar em branco. O próprio professor Carlos Chagas Filho nunca referiu essa questão sobre seu pai. Segundo Katz, todos os dados a respeito da escolha dos candidatos ao prêmio, nomeadores e nomea­dos, são mantidos em sigilo por 50 anos, e a Fundação Nobel, à época em que fez o seu artigo, publicara em seu site informações sobre as premiações concedidas de 1901 a 1951.

José Eymard Homem Pittella, patologista da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, pesquisou, em 2008, os arquivos divulgados do prêmio relativos a 1921. Segundo ele, 42 cientistas foram indicados ao Nobel de Fisiologia ou Medicina naquele ano. Os três mais votados tiveram 11, 9 e 7 indicações cada. Carlos Chagas teve uma, submetida pelo médico brasileiro Hilário Soares Gouvêa.


O processo de premiação em Fisiologia e Medicina, conforme descreve Pittella, é iniciado com a indicação de candidatos ao prêmio por pessoas qualificadas para tal. Os indicados são selecionados preliminarmente pelo Comitê Nobel, constituído por cinco membros e pelo secretário da Assembleia Nobel. Em seguida, esses candidatos pré-selecionados são avaliados por membros dessa assembleia e por revisores externos designados pe­lo Comitê Nobel. Com base nessa avaliação, o comitê elabora um relatório recomendando uma lista de candidatos para a avaliação final da Assembleia Nobel no Instituto Karolinska, sede da Faculdade de Medicina sueca.

A Assembleia possui 50 membros, e a escolha do premiado é feita por votação majoritária. A decisão é final e sem apelação. O prêmio é concedido às pes­soas responsáveis pela des­coberta, invenção ou aperfeiçoamento que seja benéfico à humanidade. Ressalte-se que somente podem ser indicados ao Nobel os nomes apresentados por pessoas devidamente qualificadas. O Comitê Nobel recebe muitas indicações, feitas por pessoas não qualificadas para tal, e essas indicações não são levadas em consideração. Tampouco pode haver autoindicação ou apresentação de nomes de pessoas já falecidas. Assim, a não premiação de Carlos Chagas é irreparável.

O trabalho de Pittella inclui uma tabela com os números de indicadores, indicados e premiados em Fisiologia e Medicina, entre 1901 e 1951, dos 20 países mais frequentes e do Brasil. Os Estados Unidos têm o maior número de indicadores (732), de indicados (1.132) e de premiados (14), mas existem países como a Polônia, que tem um número razoável de indicadores (140), de indicados (140) e nenhum premiado. O Japão tem, respectivamente, 105-98-0; a Itália, 312-253-1; a República Tcheca, 62-29-0; a nossa vizinha Argentina, 28-49-1; e o Brasil, 24-4-0.

Os quatro indicados do Brasil foram: Carlos Chagas (em 1913 e 1921); Antônio Cardoso Fontes (1879-1943), em 1934, por seu trabalho sobre o bacilo da tuberculose; Adolfo Lutz (1855-1940), em 1938, por seu estudo sobre algumas doenças tropicais; Manoel de Abreu (1894-1962), em 1946, pela introdução da abreugrafia. Outros brasileiros como Henrique da Rocha Lima, que descreveu o Histoplasma capsulatum e a Ricketzia prowazekii; e Maurício Oscar da Rocha e Silva, que descobriu a bradcinina, tampouco foram laureados. É muito significativo o fato de que Robert Koch, descobridor do bacilo da tuberculose, tenha recebido o prêmio em 1905, após 55 indicações em quatro anos consecutivos.

De forma que devem ser sinuosos os caminhos que levam à indicação de um cientista para receber prêmio de qualquer natureza, envolvendo, além do valor científico, muitos outros aspectos que nos escapam. Por sua projeção, o Prêmio Nobel eleva o conceito internacional de um país, mas o Brasil ainda está fora desse clube. Neftale Katz especula sobre as relações de credibilidade e respeito entre os pesquisadores dos países centrais e os dos periféricos. Pode ser, mas também é necessário que, entre nós mesmos, haja essa relação. Há muito a fazer até que pesquisas brasileiras ganhem mais peso e trânsito em veículos de divulgação internacional. É preciso reconhecer que o grupo que surgiu a partir de Manguinhos, sob a direção de Oswaldo Cruz, na virada do século 19, e se espalhou pelo Brasil, deu frutos significativos ao longo do século 20. Em muitas áreas da Biologia e da Medicina conseguiu mudar a projeção científica brasileira no mundo.

Fontes:

João Carlos Pinto Dias – Carlos Chagas: Prêmio Nobel em 1921- www.datasus.gov.br
– 1999 – http://www.submarino.net/cchagas/artigos/art3.htm

José Eymard Homem Pittella – O processo de avaliação em ciência e a indicação de Carlos Chagas ao prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina – Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol. 42, nº 1. Uberaba Jan./Fev. 2009

Marília Coutinho – O Nobel perdido – Reportagem publicada na Folha de São Paulo em 7 de fevereiro de 1999. www.folha.com.br – http://www.submarino.net/cchagas/artigos/art4.htm

Naftale Katz – Carlos Chagas não recebeu o prêmio Nobel – http://www.fiocruz.br/chagas/media/CARLOS%20CHAGAS%20NAO%20RECEBEU%20O%20PREMIO%20NOBEL.pdf

Reinaldo B. Bestetti, Cláudia A. Martins, Augusto Cardinalli-Neto. Justice where justice is due: A posthumous Nobel Prize to Carlos Chagas (1879-1934), the discoverer of American Trypanosomiasis (Chagas’ disease). International Journal of Cardiology, v. 134, p. 9-16, 2009.


*Delegado do Cremesp e professor titular aposentado de Patologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP 

Fonte: Revista Ser Médico nº 66


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