terça-feira, 17 de março de 2015

O sujeito detestável

O sujeito detestável
sujeito detestável encostou seu enorme jipe de guerra, construído para desbravar dunas e abrir trilhas no mato, na traseira do meu carro e começou a buzinar. Não entendi o que ele queria. O sinal estava fechado.
Ele começou a gritar que eu era uma “bicha velha”, e eu fiquei sem entender, porque, além de eu não ser bicha nem velha, adoro bichas e velhas e não entendi por que é que ele odeia bichas e velhas a ponto de achar que isso vai ofender alguém.
Como o “bicha velha” não surtiu o efeito desejado, ele disse que eu estava cometendo uma falta de civilidade. “Do que você está falando?” Ele falou que o espaço que havia entre o meu carro e o carro da frente era enorme. Olhei para a frente. Três metros me separavam de um caminhão. Achei uma distância segura e razoável.
O sujeito detestável berrou que a mãe dele estava doente, gritou que eu era uma “vedete” (sic) que me achava melhor do que os outros, mas eu não consegui entender qual era a relação disso tudo com a distância que eu tomava do carro da frente. Ele saiu do carro dele com a intenção de me bater. O sinal abriu. Acelerei.
Outra vez, há muito tempo, abri a porta do carro sem checar se vinha alguém. Vinha uma moto, em alta velocidade. O motoqueiro desviou da minha porta e caiu no chão, arrastando a perna no asfalto. Se viesse um carro na outra pista, ele teria morrido. Se ele andasse armado, teria me matado.
A moto estava por cima do corpo dele. Só conseguia pensar: “matei alguém”. As pessoas começaram a se aglomerar e a tomar partido. “Eu vi! O cara abriu a porta do carro sem olhar pra trás”. O júri popular já estava me condenando por homicídio culposo quando a vítima se levantou do chão com a roupa toda rasgada e disse: “Calma, gente”. “Você tá bem?”, perguntei. “Tô andando, tô no lucro”, ele disse.
Dei meu telefone para reparar os estragos. Ele me ligou na semana seguinte para dizer que eu não precisaria pagar nada, porque ele não iria consertar a moto. “Foi só um arranhãozinho”. “E suas roupas”, perguntei. Ele respondeu que já eram velhas mesmo. Fiquei esperando o esporro que eu merecia levar. Nada.
Tem vezes que a vida te dá um vale-esporro. Um acidente em que você não tem culpa. Um serviço mal prestado. A doença da sua mãe. O.k., você pode ser detestável. Mas o direito de ser detestável não te obriga a sê-lo. Abrir mão do direito de ser detestável: nada mais adorável.

*Gregório Duvivier é cronista, ator, humorista, roteirista e um dos idealizadores do coletivo Porta dos Fundos. Esta crônica foi publicada em seu livro Put some farofa, editado pela Companhia das Letras. 


Nenhum comentário: