quarta-feira, 11 de março de 2015

Explicación, de Pablo Neruda, no livro Barcarola (1967)


Para este país, para estos cântaros de greda:
para este periódico sucio que vuela con el viento en la playa:
para estas tierras quebradas que esperan un rio de invierno:
quiero pedir algo y no sé a quién pedirlo.
Para nuestras ciudades pestilentes y encarnizadas, donde hay sin embargo
escuelas con campanas y cines llenos de sueños,
y para los pescadores y las pescadoras de los archipiélagos del Sur
(donde hace tanto frío y dura tanto el año)
quiero pedir algo ahora, y no se qué pedir.
Ya se sabe que los volcanes errantes de las edades anteriores
se juntaron aquí como carpas de circo
y se quedaron inmóviles en el território:
los que aquí hemos nacido nos acostumbramos al fuego
que ilumina la nieve como uma cabellera.
Pero luego la tierra se convierte em caballo
que se sacude como si se quemara vivo
y caemos rodando del planeta a la muerte.
Quiero pedir que no se mueva la tierra.
Somos tan pocos los que aquí nacimos.
Somos tan pocos los que padecemos
(y menos aún los dichosos aqui en las cordilleras)
hay tantas cosas que hacer entre la nieve y el mar: 
aún los niños descalzos cruzan de invierno a invierno:
no hay techos contra la lluvia, faltan ropa y comida:
y así se explica que yo tenga que pedir algo
sin saber bien a quién ni como hacerlo.
(Cuando ya la memoria de lo que fui se borre
con la repetición de la ola en la arena
y no recuerde nadie lo que hice o no hice
quiero que me perdonen de antemano,
no tuve tiempo nunca de hacer o no hacer nada:
porque la vida entera me la pasé pidiendo, 
para que los demás alguna vez pudieran vivir tranquilos.)
Explicação 
Para este país, para estes cântaros de greda: para este jornal sujo que voa com o vento na praia: para estas terras acidentadas que esperam um rio de inverno: quero pedir alguma coisa e não sei a quem pedi-lo. / Para as nossas cidades empesteadas e encarniçadas, onde há entretanto escolas com sinos e cinemas cheios de sonhos, e para os pescadores e as pescadoras dos arquipélagos do Sul (onde faz tanto frio e dura tanto o ano) quero pedir alguma coisa agora, e não sei o que pedir. / Já se sabe que os vulcões errantes das idades anteriores se juntaram aqui como lonas de circo e ficaram imóveis no território: os que aqui nascemos nos acostumamos com o fogo que ilumina a neve como uma cabeleira.

Mas logo a terra se converte em cavalo que se sacode como se queimasse vivo e caímos rolando do planeta para a morte. / Quero pedir que não se mova a terra. / Somos tão poucos os que aqui nascemos. / Somos tão poucos os que padecemos (e menos ainda os felizes aqui nas cordilheiras), há tantas coisas que fazer entre a neve e o mar: ainda as crianças descalças atravessam de inverno a inverno: não há tetos contra a chuva, faltam roupa e comida: e assim se explica que eu tenha que pedir alguma coisa sem saber bem a quem  nem como fazê-lo. / (Quando já a memória do que fui se apague com a repetição da onda na areia e não recorde ninguém o que fiz ou não fiz, quero que me perdoem de antemão, não tive tempo nunca de fazer ou não fazer nada: porque a vida inteira a passeia-a pedindo, para que os demais alguma vez pudessem viver tranquilos.
Tradução do próprio Neruda, para a versão brasileira de Antologia Poética (1968),  pela Editora Sabiá-RJ.

Poema by Pablo Neruda
Foto by Mari Martins




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