quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Segundo clichê




Existem algumas formas para evitar as discussões inerentes numa relação. Dividir tarefas é uma. Exemplo: se estão num apartamento, ela pega o jornal no hall, ele, o delivery na portaria.

Outro? Ela passeia com o cachorro de dia, ele, à noite. Ela o leva à tosa e banho, ele, ao veterinário. Ela dá a ração, ele limpa os excrementos.

Com a repetição e o consenso, acomodam os conflitos e aumentam as chances de ser estabelecida a paz. Mas o que realmente ajuda uma relação é a alternância de quem escolhe o que fazer aos sábados.

Sábado à tarde
Comida costuma causar muita polêmica, pois ele prefere sempre os mesmos restaurantes, e ela, o novo, restaurantes étnicos que saem nos guias, recomendados por críticos gastronômicos e colunas sociais.

Prático, ele gosta de rodízio. Especialmente de churrascarias. De dia ou de noite, não faz diferença: pede farofa com ovo e bacon. Gosta também de cantinas italianas tradicionais, daquelas com massas grossas e fartura de molho. Ele sempre pede torradas com alho de entrada. E polenta frita. Bebe refrigerante. Ou caipirinha de limão com pinga mineira. Sem açúcar.

Já ela gosta de grelhados com salada, pratos com ricota, tomate picado e manjericão. Bebe suco. Ou caipirinha de frutas vermelhas com saquê. E adoçante.

Ele coloca manteiga no pão. Ela, azeite. Ele gosta de picanha. Ela de paillard. Ele pede maionese extra. Ela pede para tirar. Ele pede espaguete. Ela, meio pene. Ele encara um carneiro com batata. Ela prefere um atum ou salmão com brócolis.

No entanto, na sobremesa, a preocupação com a taxa de triglicerídeos inverte. Ele pede um café, ela, um petit gâteau com sorvete de creme, calda de chocolate extra e farofinha.

Sábado à noite
O programa é cinema! Quando ele escolhe, geralmente são filmes de guerra, policial ou terror. Que concorrem a algum Oscar técnico: efeitos especiais, montagem, edição de som ou maquiagem.

Na fila do cinema, encontram o dentista, o professor de caratê da infância, filhos de amigos, a secretária da firma e seu namorado forte, e um ex de quem ela nem lembra o nome.

Os protagonistas do filme têm tríceps, bíceps e deltoides bem trabalhados. E costumam exibi-los em camiseta regata. Têm barba bem-feita e seguram qualquer arma com intimidade, de um simples revólver a uma submetralhadora com mira a laser. Sabem onde destravá-las e como apontá-las. E só viajam de primeira classe.

Todos violentos. Todos com cenas de perseguição. Todos com heroínas loiras e saradas. As traições são resolvidas na porrada.  A vingança? Dão um tiro na testa do infeliz. Sempre há em jogo uma maleta de dinheiro. Quando não, há uma maleta com uma bomba complexa.

Há vilão, e ele costuma ser feio. Ou tem uma deformidade de nascença ou uma deficiência adquirida. A grande ambição do protagonista não é uma lancha ou um avião particular, mas voltar para a paz da sua casinha com o seu cachorro labrador. A loira é detalhe. Ele sabe muito bem que, depois de suar em bicas, ela irá para os seus ombros salientes. Apesar de vestir a mesma camiseta.

O casal chama de “filme de menino”.

São exibidos em salas enormes, as maiores dos shoppings, com tecnologia de ponta na compra de ingressos, poltronas, imagem e som digital. Até os estacionamentos têm guaritas com cancelas automáticas, daquelas que falam sozinhas.

Só o preço dos ingressos incomoda. Com o dinheiro que gastam, pagariam tranquilamente um combinado duplo num japa de respeito; sem modismos. Mas ela não reclama. Sugere o jantar num fast-food da praça de alimentação, para compensar o preju.

No outro fim de semana, a garota escolhe o filme. Geralmente foi premiado no festival de Cannes, Veneza ou Berlim.  Tem bom roteiro, diálogos inteligentes e atores magros e pálidos. Os personagens não dão um tiro durante o filme. Se rolar uma arma, logo a dispensam: são da paz. E têm gatos.

Na fila do cinema, encontram o terapeuta, um colunista de jornal, pais de amigos, o dono da firma com a sua amante francesa, o professor de ioga e o ex mais recente, que acabou de chegar do Nepal e tem mil novidades.

Ela gosta de filmes multiculturais que discutem preconceitos e tabus. Certamente, também exploram a relação amorosa, os seus caprichos e a relação entre pais e filhos. Existem amantes. As traições são resolvidas com muito papo.

Há referências históricas. São falados em espanhol, francês, árabe ou chinês. O enredo gira em torno de dilemas existenciais. Nos créditos, agradecem a vários institutos e parcerias. Não há uma distribuidora de peso por trás. O logo da produtora é antiquado e repleto de riscos.

Há cenas longas, escuras, filmadas por uma câmera que não sai do lugar. Os personagens não se vingam, conciliam-se. Estão sempre duros e não se xingam. A maior ambição é entender o sentido da vida. Viajam de classe econômica.

Os finais são em aberto. E ele sempre pergunta para ela o que, afinal, aconteceu. Ele não entende direito quem é o bem e quem é o mal. Sim, tais filmes não têm vilões. Aparentemente, o vilão está dentro de cada um de nós: é a mensagem que querem passar.

O casal chama de “filme de menina”.

São exibidos em salas pequenas, cinemas que parecem cineclubes, onde se estaciona na rua. A pipoca é amadora – fria e mole –, vendida por um pipoqueiro na calçada. As poltronas seguem uma moda retrô. Normalmente, têm  a cor do vazamento do teto. O ar condicionado é temperamental: muito frio em dia frio, e preguiçoso em dia quente.

Ao menos, sobra dinheiro para tomarem um saquê californiano no japa em questão.

É evidente que tudo isso não passa de um clichê barato, resultado de estereótipos e generalizações. Mas domingo não tem jeito: é sempre a mesma coisa.

Ela dorme pesado. Ele liga a tevê para ver a corrida. Ele toma café. Ela, chá. Ele faz um ovo frito. Ela toma iogurte que ativa o intestino. Ela demora horas no chuveiro. Ele, no toalete.

À tarde. Ela quer visitar a família. Ele, nem precisa falar: assinou o canal pay-per-view do campeo­nato em disputa, logo... Para a sorte dele, começa a chover. Ela fica no telefone, ele na tevê.

À noite é batata, digo, pizza. Adivinha quem pede meia calabresa e quem pede meia rúcula com tomate seco?



Crônica de Marcelo Rubens Paiva - Escritor, dramaturgo e jornalista. Crônica publicada no livro Crônicas para ler na escola (seleção Regina Zilberman), da Editora Objetiva



Nenhum comentário: