segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Água pode conter contaminantes endócrinos



Água de beber?
Não previstos pela legislação,“contaminantes emergentes”, encontrados na água por cientistas da Unicamp, podem, segundo eles, alterar o funcionamento endócrino do organismo

Já não bastassem as preocupações com o que comemos, devido, entre outros problemas, aos agrotóxicos nos alimentos, além de hormônios e antibióticos nas carnes, não podemos mais nem mesmo beber um simples copo de água impunemente. Uma pesquisa coordenada pelo Instituto Nacional de Ciências Tecnológicas Analíticas Avançadas (Inctaa), com sede no Instituto de Química (IQ), da Universidade de Campinas (Unicamp), mostra que naquele líquido transparente e, aparentemente, inofensivo pode haver contaminantes não contemplados pela legislação e, até mesmo, elementos que podem interferir no sistema hormonal humano.

Esses contaminantes são chamados de “emergentes” por não estarem contemplados na portaria 2.914, de 2011, do Ministério da Saúde, que define parâmetros de potabilidade da água e a quantidade segura das substâncias, como agrotóxicos e solventes. Algumas delas atingem o sistema hormonal de animais e humanos, denominados interferentes endócrinos, segundo os pesquisadores. São compostos que podem estar associados ao aumento dos casos de câncer e à antecipação da primeira menstruação em adolescentes. “(Podem incluir) novos materiais, hormônios, retardantes de chama, produtos de higiene pessoal, drogas lícitas e ilícitas, repelentes de inseto, pesticidas, protetores solares etc. Cerca de 800 substâncias dessa vasta gama de contaminantes emergentes mostraram ter alguma atuação no nosso sistema hormonal. Por isso, são chamadas de interferentes endócrinos”, explica o pesquisador e coordenador do estudo, Wilson Jardim.

De acordo com outro coordenador, responsável pela pesquisa no Paraná, e professor da Universidade Federal daquele Estado (UFPR), Marco Grassi, a portaria do Ministério da Saúde contempla um número muito reduzido de substâncias com características endócrinas interferentes. “O setor químico mundial coloca no mercado, anualmente, mais de 1.000 novas substâncias, utilizadas nas mais diferentes aplicações, como, por exemplo, produtos de higiene e cuidado pessoal, produtos de uso industrial, agrícola, entre outros. Existe, portanto, um grande desconhecimento sobre o comportamento, o destino e igualmente sobre os efeitos dessas substâncias nos diversos ecossistemas do planeta, assim como sobre os seres humanos”, alerta.

Para detectar os contaminantes não presentes na legislação, os pesquisadores utilizaram a cafeína como indicador. Além de indicar a presença de substâncias com ação estrógena, ela possibilita a medição da quantidade de esgoto lançado na água, uma vez que produtos como refrigerantes, chás, energéticos e medicamentos, entre outros, são bastante consumidos pelas pessoas e excretados pelo corpo humano. “Mais de 95% da cafeína encontrada na água do manancial ou na tratada é oriunda do esgoto doméstico. E como ela se mostra um bom indicador da atividade estrogênica, além de estar presente em concentrações relativamente elevadas nessas amostras, passa a ser um composto fácil, barato e importante de se determinar”, explica Jardim.


Fonte: Jornal da Unicamp

No ranking das capitais onde foram detectados os maiores níveis de cafeína na água, a capital paulista aparece em 8º lugar (107 ng/l). Porém, a região metropolitana de São Paulo é a mais contaminada no ranking dos mananciais. “Alta densidade populacional, falta de planejamento na ocupação do solo e de saneamento são as principais causas da contaminação dos nossos mananciais. Isso se agrava em São Paulo”, assegura Jardim. Já a primeira colocação de Porto Alegre no ranking pode estar associada ao consumo do chimarrão (erva-mate). (Confira o ranking acima)

Solução
Segundo Wilson Jardim, para diminuir a contaminação da água pelos “emergentes” é necessário, em médio e longo prazos, “melhorar a qualidade do manancial, elevando a porcentagem de tratamento de esgoto”. Já em curto prazo, uma das medidas seria o “polimento na água tratada, usando tecnologias disponíveis, como filtração por membranas e processos oxidativos”. Acrescenta que todas as amostras analisadas na pesquisa atendem aos requisitos de potabilidade previstos na portaria 2.914, “embora não seja papel da universidade fiscalizar esse atendimento, mas sim da Vigilância Sanitária”. Os contaminantes emergentes, entretanto, não estão previstos na portaria.

De acordo com Grassi, o tratamento da água ainda é realizado com o objetivo de inativar microrganismos causadores de doenças. Porém, para a remoção de contaminantes emergentes são necessários procedimentos oxidativos mais avançados. “Esses processos podem incluir o tratamento com ozônio, radiação ultravioleta, combinada ou não com catalisadores, nanofiltração, osmose reversa, entre outros”, argumenta.

Em relação à segurança da água que bebemos, Jardim acredita que uma resposta concreta para esta questão poderá ser dada, somente, daqui algumas décadas. “Normalmente a contaminação química está associada a uma exposição crônica, o que dificulta previsões. Um documento recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta para o fato de que o número crescente de casos de diabetes do tipo 2, obesidade, câncer de mama, câncer de testículo, problemas de tireoide, entre outros, estão associados ao nosso sistema hormonal. Penso que é algo preocupante.”




AGROTÓXICOS

Na cidade de Lucas do Rio Verde, no Estado do Mato Grosso, houve “contaminação de resíduos de vários tipos de agrotóxicos em 83% dos 12 poços de água potável, 56% das amostras de chuva coletadas nos pátios das escolas, e de 25% das amostras de ar”. Esses dados são fruto de uma monitoração realizada, durante dois anos, pelo doutor em Toxicologia e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Wanderlei Pignati. Segundo ele, “a água que bebemos pode conter até 13 metais pesados, 13 solventes, 22 agrotóxicos e seis desinfetantes”. Os agrotóxicos, ao serem pulverizados nas lavouras, penetram no solo e podem chegar a atingir bacias hidrográficas e lençóis freá­ticos, contaminando a água que posteriormente será utilizada para o consumo humano.

Além de causar prejuízos à água que chega às torneiras, a contaminação atinge também as chuvas. Como exemplo do nível de toxidade dos agrotóxicos, Pignati lembra que “em 2006, quando os fazendeiros dessecavam (N.R. secagem das folhas verdes e das plantas daninhas para otimização da colheita) a soja transgênica com o herbicida Paraquat, em pulverizações aéreas no entorno de Lucas do Rio Verde, o vento levou uma nuvem tóxica para essa localidade e dessecou também milhares de plantas ornamentais, 180 canteiros de plantas medicinais e de 65 chácaras de hortaliças. Também, desencadeou um surto de intoxicações agudas em crianças e idosos”.


 




SABESP E SANASA

Procurada por nossa reportagem, a Sabesp enviou uma nota na qual “garante o fornecimento de água de qualidade e de acordo com os parâmetros legais exigidos pelo Ministério da Saúde – uma das legislações mais rigorosas do mundo. Cada cliente da companhia recebe um produto tratado, que pode ser consumido diretamente da torneira. É importante apenas que o morador faça a limpeza da caixa-d’água a cada seis meses”. O texto acrescenta que “a legislação brasileira não estabelece parâmetros para os compostos citados no estudo da Unicamp. Vale ressaltar que não existe, em nenhum lugar do mundo, valores de referência para esses compostos”.

Já a Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa), responsável pelo fornecimento de água na região de Campinas-SP, afirma estar “ciente desses contaminantes não contemplados, e tem adquirido aparelhos modernos para investigação dos mesmos”. Garantiu também ter “pesquisas em desenvolvimento de metodologias de análises desses compostos para investigação nos mananciais e na água tratada”.




Referências

ORSI, Carlos. Água de 20 capitais tem “contaminantes emergentes”. Disponível em: (http://www.unicamp.br/unicamp/ju/576/agua-de-20-capitais-tem-contaminantes-emergentes). Acesso em 29 de setembro de 2013.

Pignati, W. e Dores, E.F. da UFMT; Moreira J. C. e Peres, F. da FIOCRUZ. Resumo executivo dos impactos dos agrotóxicos na saúde e no ambiente nos municípios do “interior” de Mato Grosso, Brasil. 2013.


(Colaborou: Wellington Monteiro)


Fonte: Revista Ser Médico nº 65





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