segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Seca na metrópole


Represa do córrego do Bispo, que fazia parte do antigo Sistema de Abastecimento da Cantareira, em 1893
Represa do córrego do Bispo, que fazia parte
 do antigo Sistema de Abastecimento da Cantareira, em 1893.
© ACERVO MEMÓRIA SABESP

Os ciclos de escassez de água são conhecidos dos especialistas. Mesmo em São Paulo, longe das regiões semiáridas, há períodos de estiagem às vezes prolongados. O problema torna-se agudo quando a carência de chuvas ocorre ao mesmo tempo que há grande crescimento da demanda. Ao olhar para as secas do passado na Região Metropolitana de São Paulo(RMSP), é fácil notar essa relação. “Sempre nos lembramos do boompopulacional das décadas de 1950 e 1960, mas esquecemos do brutal aumento da população entre o fim do século XIX e a década de 1940”, diz Ricardo Toledo Silva, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e pesquisador em gestão integrada da infraestrutura hídrica urbana e saneamento. Os registros indicam que o impacto dos dois fatores – seca mais crescimento populacional – provocou falta de água em outras épocas na região.
“Entre 1874 e 1900 a capital teve sua população aproximadamente multiplicada por 10 (de 23.253 para 239.820 pessoas), e entre 1874 e 1940, por 57 (de 23.253 para 1.326.261)”, conta Toledo. “É um salto muito grande. Havia menos gente do que hoje, mas todos conviviam em áreas pequenas.” O crescimento descontrolado dos núcleos urbanos degrada o ambiente, impermeabiliza o solo, cria ilhas de calor, ocupa zonas ribeirinhas e afeta a precipitação de chuva.

© ACERVO MEMÓRIA SABESP
Obra de assentamento da adutora no bairro Tatuapé para abastecer o reservatório de Belenzinho, em São Paulo (s/d)

Obra de assentamento da adutora no bairro Tatuapé para abastecer o reservatório de Belenzinho, em São Paulo (s/d)
Nos anos de 1924 e 1925, a grande seca do período levou a The São Paulo Tramway, Light and Power Company, responsável pelo fornecimento de energia elétrica para a cidade de São Paulo, a publicar em 24 de fevereiro de 1925 um anúncio nos jornais com medidas para não interromper completamente o fornecimento de energia. A Light passaria a usar a usina a vapor que já tinha, instalaria novos geradores e turbinas, concluiria uma usina em andamento e construiria nova hidrelétrica. Também passaria a comprar energia da companhia de luz de Campinas.
Outro sério ciclo de seca ocorreu entre 1951 e 1956, dentro do qual o pior ano foi o de 1953. Também a escassez de água de 1969 foi muito divulgada pela imprensa, por conta da severidade do racionamento. Neste século, segundo Toledo, a seca mais notória da região ocorreu em 2003, na área do maior sistema metropolitano, o Cantareira. A atual, de 2014, promete ser a pior de todas, desde que as medições começaram a ser feitas na RMSP, em 1930.
“A população sofre por dois tipos de falta d’água: por escassez nos mananciais ou por insuficiência na rede de distribuição”, explica o pesquisador, que também é assessor técnico da Assessoria Especial de Assuntos Estratégicos do governo do estado de São Paulo. Hoje, o risco de falta d’água por problemas na rede de distribuição é apenas episódico, por acidente. “Mas na São Paulo dos anos 1920 até os 1970 os dois tipos de ocorrência se combinavam com muita frequência.”

© ACERVO MEMÓRIA SABESP
Obra do Sistema Rio Claro, realizada em Salesópolis, em 1936, para aumentar a oferta de água

Obra do Sistema Rio Claro, realizada em Salesópolis, em 1936, para aumentar a oferta de água
O abastecimento de água transformou-se em grave problema social da capital paulista nos últimos 30 anos do século XIX. A solução foi organizar, em 1877, a Companhia Cantareira de Água e Esgoto – encampada pelo estado em 1892. No século XX, foram criados sistemas para aumentar a oferta, como o Rio Claro (décadas de 1930 e 1940), o Alto Tietê e o novo Cantareira (ambos da década de 1970), entre outros.
“Para evitar a falta d’água são necessárias medidas estruturais de longo prazo, como um novo ordenamento territorial urbano e também regional, à parte as obras de infraestrutura hídrica”, diz Toledo. Antes limitado à pequena província de São Paulo, no século XIX, agora o planejamento envolve toda a macrometrópole paulista, que engloba 180 municípios – incluindo a capital –, onde vivem 31 milhões de pessoas. Foi feito um Plano Diretor de Aproveitamento dos Recursos Hídricos para a Macrometrópole Paulista, cujos relatórios finais estavam prontos em outubro de 2013. O estudo aponta para a necessidade de criação de novos sistemas de captação e reserva, maior controle de perdas, uso racional da água e adoção de seu reúso.
Fonte: Revista Pesquisa Fapesp



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