sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

“Um Malbec argentino, por favor”




Numa terra longínqua, passava um jovem por uma estrada quando notou um senhor de brancos cabelos plantando tamareiras. Nessa terra longínqua, todos sabem que a tamareira leva mais de 50 anos para produzir seus frutos, e era claro que o idoso senhor jamais veria as tâmaras das árvores que plantava. Curioso, o jovem se aproximou e perguntou: “senhor, por que plantas árvores cujos frutos jamais verás?” Mirando o jovem nos olhos, o idoso senhor respondeu: “planto porque estou com vontade de plantar; a terra é minha, as sementes são minhas, e não tenho que dar satisfação pra ninguém”.
Sábias palavras. Lamento que, muitas vezes, elas me faltem, principalmente quando declaro que sou abstêmio e agnóstico. Ah, meu Deus (como dizia o ateu), o que já não tive que escutar por causa das minhas abstinências, de álcool e de fé.
Comecemos pelo álcool: o vinho tinto me provoca rubor, sensação de calor e uma incômoda taquicardia. “Culpa do tanino”, disse um dos 162 mil especialistas em vinho que moram em São José do Rio Preto. Dizem que há duas estações aqui nesta terra, verão e inferno. Os especialistas se reúnem em confrarias, geralmente uma vez por mês, para degustar os tintos. Interessante que, com todo esse calor, não se bebe champagne ou brancos nas cerca de 20 mil confrarias de vinho da cidade. E não há nenhuma de cerveja. A não ser que possamos chamar de confraria a turba que se reúne no Bar do Paulão todas as tardes, para tomar umas geladas e degustar iguarias refinadas, como língua de boi à milanesa ou miolos fritos, em cadeiras nas calçadas.
Durante alguns anos, foi muito popular por aqui uma tal de “Porcada”. O dono de um açougue, que matava porcos na quarta-feira, descobriu que vender carne de porco frita dava mais dinheiro que vendê-la crua. Aí o povão invadiu o açougue, e começou a lotar o tosco estabelecimento, que se transformou num boteco ainda mais tosco. Dizem que a linguiça mista de vaca e porco era feita com carne de vaca misturada com o suor do açougueiro, já que neste calor ninguém consegue fazer linguiça sem suar muito. Enfim, sou abstêmio numa cidade em que os mais abastados bebem vinho, os nem tanto bebem cerveja, e uma turma muito grande que bebe o que estiver à frente.
Algumas bebidas me dão prazer, mas só no primeiro copo, como mojito ou daiquiri. “Coisa de boiola”, comenta meu amigo que pertence à categoria de bebe-tudo. “Se ele pedir suco de abacaxi com hortelã, eu levanto da mesa”, diz. No segundo copo, já se instala o mal-estar.
Para falar a verdade, tenho inveja de quem pode tomar um vinho com prazer, sem ter a sensação que me acomete depois do segundo gole: sair correndo para a emergência do hospital mais próximo. E queria ter a autoridade de sentar numa mesa e pedir um “Malbec argentino” ou coisa que o valha. Depois, solenemente, cheirar a rolha, provar aquele tantinho que está na taça e, com um meneio discreto da cabeça, autorizar o sommelier a encher as demais taças. Ao invés disso, peço um refrigerante, com uma ressalva: tem de ser zero. Ou água, mas que seja com gás. Estou ficando profissional: já consigo pedir minha bebida em seis línguas. E com detalhes: os ignorantes bebedores de álcool não sabem que há várias diferenças entre sparkling waterclub sodasoda water e seltzer. Detalhes que só nós, abstêmios profissionais, conhecemos.
Nas festas, o anfitrião coça a cabeça quando abre aquele grand cru e digo que não bebo. Consternado, sugere: “água você bebe?”. Interessante que não estou sozinho: cerca de 7% dos adultos têm alguma intolerância ao álcool. Mas de alguma maneira esses 7% nunca estão presentes nos lugares que frequento. Ou estão mais disfarçados que espião da CIA, girando o gelo de um copo de uísque, que permanece intacto.
Se os abstêmios permanecem ocultos, estou descobrindo uma nova turma de colegas. Saí­mos para jantar; e minha mulher e minha filha pediram vinho. “Excelente escolha”, disse o garçom. Quando foi me servir, ganhei uma discreta censura: “o senhor está recusando um ótimo vinho”. E a cada vez que servia fazia um novo comentário. Até que, para interromper a sequência de “o senhor tem que experimentar este vinho”, disse em voz baixa ao garçom: “por favor, não me ofereça mais o vinho: sou ex-alcoólatra”. Na hora, ele se tornou amigo: “eu também”.
Descobri, então, que, na escala dos bebedores, o ex-alcoólatra está no topo. Foi lá e conseguiu voltar, e todos o tratam com respeito. Agora peço em voz alta: “um refrigerante zero, por favor” e sussurro para o garçom: “sou ex-alcoólatra”. E aí sou tratado com o respeito que só os verdadeiros profissionais merecem.
As agruras de ser agnóstico ficam para uma próxima crônica.

Crônica by Tufik Bauab
Fonte: Revista Ser Médico - Edição 77




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