quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Tchekhov, ou a integralidade do real




Depois de Kant, e o fim da metafísica, o pensamento no mundo, e sobre o mundo, jamais foram os mesmos. A realidade em si, até então naturalmente designada por Deus, restou intangível e à margem da investigação filosófica.

A ciência, incluindo o campo doutrinário da Medicina, erige-se, ao longo do século 19, e sob as lentes do método experimental, como a referência antes exercida pelo sagrado.

Em meio a esse contexto, Tchekhov, aos 24 anos, em 1884 formou-se médico em Moscou e, ao longo de sua vida, interrompida precocemente pela tuberculose, aos 44 anos de idade, clinicou em regiões provincianas da Rússia. Nele, a biografia engendrou a obra. Sua literatura tem a objetividade e precisão do cientista, sem eximir-se de expressar (contidamente, como era de seu estilo) as notas sutis da experiência emocional humana. E se ele próprio acreditava na força inexorável do progresso, entusiasta que era das aquisições científicas de seu tempo, permaneceu intransigentemente cético quanto à possibilidade de a ciência redimir as intempéries do espírito, materializadas na destruição da natureza e na existência precária de seus próximos.

Górki escreveu-lhe um dia: “Você me parece ser o primeiro homem que conheci, o primeiro que não venera nada”. De fato, assim era Tchekhov. Empreendeu, como um homem de seu tempo, a busca pela objetividade dos fatos, sem que, no entanto, acreditasse com isso poder desvelar uma verdade definitiva que os explicasse. Como médico, importava-lhe mais a minimização do sofrimento alheio do que a investigação científica das doenças; como escritor, em carta ao seu editor, Suvórin, afirmou: “ao exigir do artista uma atitude consciente ao seu trabalho, você tem razão, mas confunde dois conceitos: a solução do problema e a colocação correta do problema. Apenas o segundo é obrigatório para o artista”.


Tchekhov e Górki em Ialta, em 1900
Nele, o que podia parecer indiferença ou insensibilidade, era, pelo contrário, postura ética sutil para com a vida e para com seus próximos. Seus atos denotam inteireza de caráter, sem excessos ou desdobramentos desnecessários.

Como artista, seus personagens eram simples e sem ambições, sem grandes ideias ou respostas que remitissem o tédio de suas existências e a expectativa impotente por algo melhor. Mas a atmosfera que ascende de seus contos e seus textos de teatro docemente nos comove a tornar-nos mais fraternos.

Como homem de ciência, ou em “débito para com a Medicina”, parte aos 30 anos, desaconselhado por todos, dado à saúde precária, para três meses de um trabalho de campo em Sacalina, ilha inóspita do extremo leste do Pacífico a conter presidiários, sentenciados ao degredo e a trabalhos forçados. Ali, faz um detalhado recenseamento demográfico, técnico e exato, não sem expressar a comoção profunda ante as condições desumanas a que os presos são submetidos: “deixamos milhões de pessoas nas prisões (...); obrigamos pes­soas algemadas a percursos de milhar de verstás, ao frio; transmitimos sífilis; corrompemos; multiplicamos os criminosos; e imputamos tudo isso aos carcereiros de nariz vermelho. Hoje toda a Europa culta sabe quem são os responsáveis: não são os guardas, mas cada um de nós”.

Vê-se, destarte, que, para Tchekhov, arte e ciência são um só. Objetividade e ternura. Discrição e transparência. Liberdade e compromisso. Ceticismo e esperança. Insânia e lucidez. Uma só integralidade do real.

No conto Enfermaria nº 6, o médico progressivamente se identifica com o estoicismo, o livre pensar e a perspicácia de seu paciente delirante.


Casa onde nasceu Tchekhov, em Taganrog, em porto marítimo
no sul da Rússia

No drama Tio Vânia, o personagem principal vê confluência e unidade nos contrastes da experiência: “Daqui a pouco a chuva vai parar, e tudo na natureza vai respirar de alívio”.

Sobretudo, Tchekhov era um homem íntegro, desses que despertam alguma rara esperança no mundo. Um homem para quem tudo o que há é, a um só tempo, a parte e o todo. E para quem o que se perde, perdemos todos.

Assim, conforme nos lembra o tradutor Rubens Figueiredo, o autor russo, em uma carta de 1892, escreveu: “O pintor Levitan está passando alguns dias no meu sítio. Ontem, ao entardecer, eu e ele fomos à zona de caça às galinholas. Levitan disparou, e uma ave, ferida na asa, caiu num charco. Eu a levantei. Tinha um bico comprido, olhos grandes e pretos e uma plumagem bonita. Olhava para nós, espantada. O que podíamos fazer? Levitan franziu a testa, fechou os olhos e me suplicou, com voz trêmula: ‘Por favor, esmague a cabeça dela com a coronha do rifle’. Respondi que não podia. Ele não parava de sacudir os ombros, nervoso, contraía o rosto e suplicava. A galinhola olhava para mim, espantada. Tive de obedecer a Levitan e matá-la. E, enquanto dois imbecis voltavam para casa e sentavam-se para jantar, havia uma criatura fascinante a menos no mundo”.

Tchekhov foi uma criatura fascinante, não só pela economia de gestos e palavras, mas porque emana desta, nas pausas e silêncios inesperados, uma surpreendente semântica de afetos e valores. Nele, a sombra é luz. Escreveu da mesma maneira como viveu. Foi um inventor de formas. Seus textos tinham um desfecho suave, em aberto. Assim, como morreu. Não teve filhos. Mas, na Rússia, as rosas púrpuras, que tanto amava, todos os anos renascem, em abril.


Sugestão de leitura

Tchekhov, de Sophie Laffitte. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1993.
A. P. Tchekhov: cartas para uma poética, de Sophia Angelides. São Paulo: Edusp, 1995.


Fonte: Revista Ser Médico nº 68
Mauro Aranha de Lima - Médico psiquiatra e vice-presidente do Cremesp







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