quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Revoltas silenciosas



 “A vida não é o que os olhos veem, mas o que a alma guarda”: esta frase, escrita quase em tom de desabafo por Lúcio Cardoso, bem poderia ser considerada um resumo ultraconcentrado da visão que orientou sua produção literária – uma produção adiante de seu tempo e, por isso, nem sempre bem compreendida.
Estreando no romance durante a década de 1930, quando a literatura brasileira estava fortemente polarizada entre “regionalistas” e “intimistas”, o futuro autor de Crônica da Casa Assassinada(1959) transcendeu essa dicotomia redutora e, com isso, foi recebido com estranhamento por uns e outros. Sua obra, que explorou com sutileza o mundo interior das personagens, alcançou o universal a partir do particular e compôs um aguçado painel das relações sociais a partir dos conflitos individuais.
A figura da mulher ou, melhor dizendo, a centralidade do feminino, a um só tempo enigma e resposta, constituiu a marca característica e o fio condutor dessa obra, tão original na cena literária brasileira de seu tempo. Tal é a opinião sustentada por Elizabeth Cardoso no livroFeminilidade e transgressão: uma leitura da prosa de Lúcio Cardoso, publicado com o apoio da FAPESP.
Elizabeth, que, a despeito do sobrenome, não tem parentesco com Lúcio Cardoso, é escritora, tradutora e crítica literária, pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP. Seu livro, que concentra o foco na obra em prosa do autor, resultou de pesquisa de doutorado realizada no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), com bolsa da FAPESP.
“Das 67 personagens significativas da obra em prosa de Lúcio Cardoso, 33 são mulheres”, informou Elizabeth à Agência FAPESP. Tal dado, puramente quantitativo, já diz muito sobre a peculiaridade do autor. Pois ele produziu sua obra nas décadas de 1930, 1940 e 1950, em um Brasil ainda arraigadamente patriarcal.
Para efeito de comparação, considere-se a pesquisa com 258 romances brasileiros, publicados entre os anos 1990 e 2004, realizada por Regina Dalcastagnè, professora da Universidade de Brasília (UnB). Nessa vasta amostragem de textos que vieram a público após a chamada revolução sexual e o movimento feminista, foram contabilizados 62,7% de personagens do sexo masculino e 37,8% do sexo feminino.
Mais relevante do que o dado quantitativo, porém, é o diferencial qualitativo desse olhar focado no feminino. “A figura feminina insuflou a tendência das criaturas de Lúcio aos diálogos internos, pautados pelas dúvidas ontológicas, e ao silêncio”, escreveu Elizabeth. Segundo a pesquisadora, essa “outra forma de escrever”, fora dos padrões estritos do que se considerava realismo na época, pede também outros caminhos de leitura. Por isso, ela recorreu, em seu trabalho, ao repertório da psicanálise, notadamente a Freud e Lacan, para se aproximar dessa obra que ainda desafia a crítica.
“Dando continuidade às reflexões iniciadas por Freud, Lacan concluiu que não há definição para as mulheres enquanto grupo. Elas só podem ser pensadas uma a uma. Daí sua famosa afirmação: ‘a mulher não existe’. Isto é: não existe um significante do sexo feminino no inconsciente. Ao contrário dos homens, que se definem pelo falo, as mulheres não podem ser reunidas e limitadas em uma imagem ou conceito”, afirmou Elizabeth.
“Por outros caminhos, Lúcio também deparou com esse feminino que escapa às definições. Constantemente, suas personagens perguntam: ‘O que é uma mulher?’, ‘O que essa mulher quer?’. Esse enigma traz uma espécie de ameaça, pois as pessoas não sabem o que esperar da feminilidade. Por isso, eu coloquei esses dois saberes, o da literatura e o da psicanálise para dialogar, buscando o benefício da leitura da obra literária e não a confirmação ou exemplificação da teoria psicanalítica”, prosseguiu a pesquisadora.
“Essa definição do feminino que sempre escapa é marcante na obra do Lúcio e culmina em Crônica da Casa Assassinada, quando ele apresenta vários narradores, todos com a pretensão de definir Nina, e todos falham”, comentou Elizabeth. “Tal característica já aparece com muita força nos livros anteriores, como Mãos Vazias (1938), Inácio (1944) e outros, nos quais as personagens femininas parecem resistir à pretensa onisciência do narrador, permanecendo donas de seus segredos e revelando-se na indefinição.”
Mas esse caráter misterioso e indefinível não valeria também para o masculino? Elizabeth admitiu que também se fez esta pergunta, reconhecendo que qualquer indivíduo é irredutível a uma definição. Mas argumentou que, na obra de Lúcio Cardoso, a complexidade, a indefinição, o saber que escapa estão associados predominantemente ao feminino.
“É nesse aspecto que a literatura intimista de Lúcio se torna também uma literatura social. Pois seu narrador faz questão de apresentar o homem, a figura central da ordem patriarcal, com uma platitude, uma trivialidade, uma mediocridade extremas, em contraponto a um feminino altamente complexo. É esse contraponto que justifica uma leitura diferente daquela que usualmente foi feita da obra de Lúcio, percebendo nela toda uma dimensão de crítica social.”
Isso fica muito claro, em Crônica da Casa Assassinada, no cotejo das trajetórias de Ana e Nina. “São duas mulheres muito diferentes, mas com um destino parecido, de submissão, de sujeição. E ambas não aceitam as regras sociais que lhes foram impostas. Cada uma transgride, ao seu modo, essa ordem masculina, condensada principalmente na figura de Demétrio Meneses, que é o chefe da família. Elas são antagonistas, mas com vários pontos em comum, como, por exemplo, o fato de serem encaradas pelos Meneses como objetos”, afirmou Elizabeth.
“É muito marcante o trecho em que a Ana rememora como, desde menina, foi formatada para se casar com um Meneses, para ser Ana Meneses. E Nina é a mulher objeto clássica, que a família quer dispor como um prêmio, como se ela, com sua beleza, com seu charme, pudesse fazer rebrilhar o prestígio que os Meneses tiveram no passado. Mas, em dado momento, elas percebem que não querem só isso, que querem mais. E então acontece toda a trama do romance”.
Assim como ocorria com as mulheres reais de seu tempo, no entanto, constrangidas pelos papéis a elas impostos pela ordem patriarcal, e só em casos muito excepcionais sendo capazes de transcender as limitações dessa ordem, as personagens femininas de Lúcio Cardoso protagonizam revoltas silenciosas, fadadas, de certo modo, ao desastre. “Elas não conseguem se alçar a uma condição de independência, de superação, de autorrealização. A revolta, como regra, ocorre dentro dos limites do lar. E sua linha de chegada é o incesto, a loucura, a morte”, explicou a pesquisadora.
Uma questão que não está no livro, mas vem à mente após sua leitura, é se essas personagens ainda são atuais no contexto da sociedade brasileira desta segunda década do século XXI.
“O grande tema de Lúcio é a liberdade, ou a privação dela se preferirmos. Ele elegeu a feminilidade como emblema dessa situação. No entanto, isso diz respeito às mulheres e aos homens. Ter seus desejos negados, sua vida roubada, seu destino interrompido gera sofrimento ao sujeito masculino e feminino. Lúcio é um mestre ao delinear essas questões humanas e elas, ao que parece, não perderão a atualidade jamais”, concluiu Elizabeth.
Feminilidade e transgressão: uma leitura da prosa de Lúcio Cardoso 

Autora: Elizabeth Cardoso 
Lançamento: 2013 
Preço: R$ 35 
Páginas: 348

Mais informações: www.editorahumanitas.com.br/detalhesLaSQL.php?cod=732 


Fonte: Agência Fapesp



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