terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A adoção tardia e o desafio de amar




Por: Dora Martins*

Há um belo provérbio chinês que diz que “São necessários três mil anos de orações para repousar a cabeça no travesseiro com alguém que amamos”. E quantos mil anos serão necessários para amar uma criança como um filho?? Amar uma criança que não tem nossa tão acalentada herança genética, mas que tem olhos de afeto, coração pulsante e riso bonito???
 A adoção de crianças maiores é um grande desafio para quem ousa amar o outro, esse alguém para ser filho, um ser que se tem que recepcionar na alma de um modo inteiro.  Cresce, de pouco em pouco, no Brasil, o interesse de pessoas casadas ou solteiras pela adoção de crianças maiores, acima de 3 ou 4 anos, embora o limite raramente  ultrapasse alguém com 7 ou 8 anos. É a chamada adoção tardia.
Tardia talvez para o menino ou menina que, em seu quarto dividido com tantos outros numa instituição, já tenha feito milhares de anos de orações, pedindo uma família. Tal adoção, tal jeito de constituir uma família, não é cogitada por muitos que até pensam em adotar, mas não seguem avante nessa empreitada de afeto e alteridade com esse outro ser que já fala, pensa, pede, interpela e sonha.
Crianças que por razão qualquer vivem tanto tempo num abrigo, e que lei nenhuma consegue tirá-las de lá, são seres plenos de esperança e medo. Ambos sentimentos alimentados pelo mesmo fato – onde está uma família que me leve daqui??
Você, leitor e leitora, por certo, não viveu parte de sua infância num abrigo. Nem eu. E, pois, não sabemos, de fato, como dói essa espera. E, muitos, meninos e meninas, na faixa dos 5 aos 12 anos, em dezenas de abrigos em São Paulo e Brasil afora, não se conformam com tão longa espera (ou inútil espera) e, então, se rebelam, não “se comportam bem”, são  agitados, berram, choram, pedem, exigem, não tem bom rendimento escolar, sofrem de um tal déficit de atenção e coisas que tais.
Apesar de choraram de saudades de uma mãe ausente, de se deprimirem cada vez que um bebê que vive ali é adotado, para eles não há colos suficientes e amorosos de verdade, olhares precisos e presentes, e sim, e por fim e para por fim em tanta agitação, para esses sobra uma prescrição: fluoxetina (20 mg, 1 vez ao dia), Neuleptil (4%, 1 vez ao dia), Oxcarbamazepina (2 comprimidos por dia) e Ritalina (1/2 comprimido de manhã e meio ½ comprimido à noite). 
Aos treze, catorze, quinze até os dezessete anos, aumentam-se as doses, a angústia e a rebeldia. Aos dezessete anos, onze meses e vinte e nove dias de vida, exige-se desses meninos e meninas estarem aptos para a chamada autonomia, e a um passo da rua, para um mundo desconhecido que os quer, enfim, cidadãos cônscios de seus deveres. Você conseguiria??


*Dora Martins é membro da Associação Juízes para a Democracia e da Coordenadoria da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo.
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