sábado, 24 de outubro de 2015

Dica cultural

ÁFRICA CONTEMPORÂNEA EM SÃO PAULO
Escultura de Kifouli Dossou, do Benim
Skylines, de El Anatsui, considerado o mais importante artista africano
da atualidade. Manto feito de material reciclável
Atmosphere 1, de Soly Cissé, 2015. Tinta acrílica e pastel sobre tela
 A arte tradicional, relacionada à tribal, com suas máscaras, totens e bandejas, marca o inconsciente popular quando se pensa na África. Contudo, nos últimos anos os artistas contemporâneos dos países africanos têm aberto cada vez mais espaço no cenário das artes visuais, com obras que trazem diferentes elementos e coloração, representando as identidades de suas nações – mesmo que, às vezes, essas se estabeleçam por meio de influências parecidas, ainda herança do histórico de colonização.
Em São Paulo, aumentam as exposições que trazem a arte atual daqueles países, consequência da valorização que ela vem recebendo pelo mundo, mas também buscando se pensar as influências e relações possíveis entre a cultura africana e a brasileira. Uma delas, a Africa Africans, foi realizada entre 25 de maio e 30 de agosto, no Museu Afro Brasil, localizado no Parque do Ibirapuera. Mas ainda dará tempo de ver outras duas que estão previstas para outubro e novembro deste ano, no Sesc Belenzinho e no Sesc Pompeia.
 
Africa Africans
Nessa mostra, o curador e diretor do Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo, reuniu mais de 20 artistas, apresentando cerca de 100 obras realizadas com diferentes técnicas e estilos. A elas, somaram-se obras do acervo do Museu e da coleção particular do idealizador. Um dos objetivos da exposição foi fazer um contraponto à ideia disseminada no Brasil de uma África generalizada – de um único povo e sem identidades definidas –, mostrando, logo na entrada, a arte tribal como contexto do passado tradicional, mas também como contraste com o que seria visto em seguida.
A primeira etapa do projeto Africa Africans foi um desfile de moda – como parte do circuito da São Paulo Fashion Week deste ano, em 17 de abril –, com peças de cinco estilistas do continente: Palesa Mokubung, da África do Sul; Amaka “Maki” Osakwe, da Nigéria; Jamil Walju’, do Quênia; Xuly Bët, de Mali; e Imane Ayissi, de Camarões.
Dentre os destaques da mostra no Museu Afro Brasil estava, em uma sala, uma majestosa biblioteca em estilo colonial, que prendia a atenção pelo tamanho imponente e seus livros coloridos. A autoria da The British Library é do artista Yinka Shonibare, nascido na Inglaterra, para onde voltou para estudar artes depois de ter sido criado na Nigéria. Os livros de sua obra são encapados com tecidos de estampas tradicionais africanas – produzidos, porém, na Holanda –, e trazem, em suas lombadas, nomes de imigrantes. Enquanto isso, nos tablets distribuídos pelas “mesas de leitura”, espectadores podiam entender o contexto atual das emigrações de africanos, por meio de uma coletânea de vídeos jornalísticos sobre o assunto. Em outra página, um texto introdutório explica que os nomes que formam o grande acervo, de famosos e anônimos, representam a contribuição dos imigrantes com o trabalho e o desenvolvimento da sociedade britânica.
Outras obras grandiosas estiveram presentes na Africa Africans, como Skylines, um manto de forma maleável, realizado com material reciclado, em uma incrível montagem de pequenas tampas metálicas, de autoria do ganês radicado na Nigéria, El Anatsui. Premiado com um Leão de Ouro pelo conjunto de sua obra na Bienal de Artes de Veneza deste ano, ele é considerado o mais importante artista africano da atualidade.

Microcron - Kussum N. 10, de Owusu-Ankomah (Gana), 2011.
Acrílico sobre tela, 190 x 250 cm

Já o nigeriano Bright Ugochukwu trouxe inspiração autobiográfica à exposição com a instalação Cloud Earth Twist que, executada pelo artista no próprio Museu, reúne milhares de sacos plásticos cheios de água acidificada, lembrando a chuva ácida devido à qual o artista desenvolveu uma grave infecção de pele.
Outras obras realizadas a partir de materiais reciclados são as do beninense Aston, que há duas décadas reúne objetos abandonados para criar esculturas que questionam a escravidão dos africanos por países americanos e suas consequências. Stupides et inutiles (2007), uma grandiosa batalha de miniaturas, já havia sido exposta no prédio da Oca, também no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Faz parte do acervo do museu, junto com Stadium (2014) – um campo de futebol, provocação alusiva à Copa do Mundo –, que fez parte de uma exposição especial sobre o evento ocorrida no Afro Brasil.

Cinco personagens à procura de um autor, de Rémi Samuz
(Benim), 2014

The British Library. Yinka Shonibare; libros encapados com estampas
tradicionais africanas trazem em suas lombadas
nomes de imigrantes

A instalação Traços da Existência (2015), de Dominique Zinkpe, do Benim, encanta com um jogo de luz e cores, e sandálias de borracha espalhadas ao chão. Em um telão, ao fundo, imagens de pessoas assinando os calçados indicam a importância dos caminhos trilhados por cada indivíduo – e como deixam um pouco de si por onde passam.

Labyrinthe des passions noir, de Joël Adrianomearisoa, 2015.
Papel de sede, coleção do artista

Próximas mostras
O Sesc Pompeia promoverá o 19º Festival de Arte Contemporânea Sesc-Vídeobrasil, entre 6 de outubro e 6 de dezembro, com exposições por toda a Capital. Entre os artistas convidados, está Abdoulaye Konaté, nascido e residente em Mali, membro condecorado, em 2002, como Cavaleiro da Ordem Nacional de Mali e Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras da França. Utilizando tecido como base da maioria das suas obras, Abdoulaye mantém temáticas sociais, como as guerras, globalização, sustentabilidade, direitos humanos e Aids.
A exposição prevista para o Sesc Belenzinho, em novembro, trará também importantes nomes da arte africana contemporânea, como Edson Chagas, angolano nascido em Luanda, ganhador do Leão de Ouro de Melhor Representação Nacional na Bienal de Veneza de 2013. Chagas é conhecido pelo modo com que consegue extrapolar a prática habitual do fotojornalismo, imprimindo uma identidade própria e uma visão conceitual nas cenas do dia a dia, levantando questões ligadas ao capitalismo e à tradição cultural africana. A curadoria é de Adelina von Fürstenberg, ganhadora do Leão de Ouro em 2015, pelo pavilhão da Armênia, na Bienal de Veneza.

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