sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Binge drinking aumenta comportamento de risco



Não basta beber, tem de se intoxicar. É o que se pode deduzir do estudo realizado pela Escola Paulista de Medicina (EPM), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), sobre a prática do binge drinking nas baladas noturnas, por 29,6% dos homens e 22,1% das mulheres que participaram da pesquisa, na cidade de São Paulo. Binge drinking(farra alcoólica) significa beber muito, em pouco tempo, com a intenção de ficar embriagado – consumindo-se quatro doses, no caso das mulheres, e cinco, para homens, em um período de duas horas. Esse padrão é considerado a forma mais arriscada de consumo alcoólico por jovens, no mundo. Pode resultar em intoxicação severa e contribui para o desenvolvimento de situações de risco para quem bebe e para aqueles ao seu redor.
A pesquisa revela que dentre os entrevistados (mostra total, incluindo binge e não binge) 27,9% dos homens e 20,4% das mulheres, entre 18 e 24 anos, dirigem embriagados após sair de casas noturnas. Porém, aqueles que têm concentrações alcoólicas no sangue equivalentes à prática consomem mais drogas ilícitas, como maconha ou haxixe, cocaína, inalantes, ecstasy, anfetaminas, benzodiazepínicos e alucinógenos como o LSD. Nos homens que praticam binge o consumo dessas drogas é 2,54 vezes maior do que entre os que bebem sem binge. Dentre os sujeitos que praticam o binge, o consumo delas ocorre, após a saída da balada, em 20,7% dos homens e 11,5% das mulheres. Ainda dentro da balada, o consumo dessas drogas atinge 42,2% dos homens e 32,4% das mulheres com binge.
Além disso, os praticantes de binge têm um comportamento sexual de risco de 11,4%, entre os homens, e 6,8%, entre as mulheres. Foi considerado, nesse comportamento, o sexo sem camisinha (com parceiro desconhecido ou conhecido), arrependimento posterior à relação e sexo não consensual.
A prática do binge eleva também, em 5,8 vezes, o risco de um novo episódio de uso de álcool entre as mulheres que bebem. A amnésia alcoólica (não se lembrar do que aconteceu devido ao abuso de álcool) também é maior entre as pessoas que têm concentrações de álcool no sangue equivalentes à prática.
Publicado na revista científica on-line Plos One, a pesquisa é pioneira por descrever os comportamentos de risco de jovens após saírem das baladas noturnas. “Em geral, o foco dos estudos internacionais está apenas no que ocorre dentro desses estabelecimentos”, explica a professora do Departamento de Medicina Preventiva da EPM, Zila Sanchez, que coordenou a pesquisa. O estudo integra o projeto Balada com Ciência, que analisa o comportamento do jovem antes, durante e depois de uma festa à noite.

Método         
Participaram do estudo, como voluntários, 1.222 homens e mulheres, a maioria jovem, de 18 a 24 anos, solteira, de classe média alta e com ensino superior completo. Eles foram entrevistados por uma equipe formada por oi­to pesquisadores, que abordava cerca de 75 “baladeiros” ao longo da noite. A eles eram explicados os procedimentos éticos e de proteção ao anonimato e sigilo que guiam a pesquisa, e era realizada uma entrevista de 5 a 10 minutos, além de um teste de bafômetro. Na saída dos eventos, ambos os procedimentos eram refeitos. Foram realizadas entrevistas em 31 casas noturnas da cidade da São Paulo. Além disso, no dia seguinte, um questionário on-line era enviado para o e-mail do participante.
Para Zila Sanchez, o álcool não é reconhecido como droga, o que faz com que seja visto pela sociedade como pouco nocivo. “No entanto, a maior parte dos danos causados por drogas no mundo são decorrentes do abuso e dependência de álcool”, declara. Segundo ela, políticas públicas direcionadas a reduzir o consumo de álcool por clientes de casas noturnas, bem como o treinamento dos funcionários desses estabelecimentos, a fim de evitar a venda de bebidas a indivíduos já alcoolizados, seriam caminhos para proteger as pessoas de comportamentos de risco associados ao binge drinking.

Fonte: Revista Ser Médico - Edição 76

Não sou de fazer suspense nem sei contar piada




Eu sou a própria piada, o que estraga qualquer contação de história. Sou mais engraçado quando fico sério. Nasci na época errada: um astro do cinema mudo no século 21.
Nunca seguraria um segredo biográfico até a morte de alguém, ou não seria capaz de não transar antes do casamento. Evito realizar promessas de propósito para não ser amaldiçoado. Não juro beijando os dedos.
Não poderia participar de nenhuma máfia porque seria morto na primeira semana. Eu me desperdiço rápido, com tendência letal à fofoca. Nem vivi ainda e já estou contando. Para mim, véspera já é notícia, quase acontecimento é experiência. Preciso cuidar para a minha ansiedade não atropelar a existência.
Mas há gente com o dom de se guardar para os grandes momentos. Com a vocação de reunir as forças para o apogeu da sensibilidade. Como a Luiza. A Luizinha de Nazaré, de 77 anos, que mora sozinha em Anta Gorda (RS), a 190 quilômetros de Porto Alegre.
Ela sofre de osteoporose. Às vezes, tem crises sérias a ponto de não ter força para se levantar. Fica acabada, triste, com ossos frouxos, como um quebra-cabeça que carece de algumas peças, e depende de ambulância para ser decifrada pelo seu doutor em Porto Alegre.
Os plantonistas do hospital local não tiram uma palavra de sua boca, uma descrição do que está acontecendo em seu corpo, um sintoma qualquer, não têm nem informações para preencher o prontuário. Entram em pânico com o silêncio irredutível de Luizinha.
Ela não fala. Só fala na presença de seu médico. Seu médico é seu advogado. Parece que a doença é um crime pessoal. Entra calada e sai calada da emergência do hospital da cidade, só troca gemidos e resmungos com os enfermeiros.
Testemunhando a aflição infinda da paciente e desconhecendo o seu temperamento arisco, um dos socorristas inventou de oferecer um analgésico para aliviar a sua tormenta. Ela começou a gritar sem parar, como um alarme de carro.
Luizinha ficou profundamente ofendida com a oferta. No fim, explicou para o perplexo atendente:
– De modo nenhum, não quero tomar nada para me aliviar. Quero chegar ao médico com toda a minha dor.

Fabrício Carpinejar - Poeta, escritor, colunista, jornalista e apresentador de TV; autor de vários livros, entre eles Canalha! e Ai meu Deus, Ai meu Jesus

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Poema XLIV




Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem a sua metade de frio.

Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

Poema by Pablo Neruda
Foto by Mari Martins


Se imagine no lugar do outro...




Imagine-se dentro de um campo de refugiados, acompanhando seu cotidiano como se fosse uma criança... A Organização das Nações Unidas (ONU) está tornando isso possível por meio do documentário Clouds over Sidra, em realidade virtual, com o objetivo de estimular a conscientização sobre a crise humanitária no mundo. Usando óculos com tecnologia de realidade aumentada, o espectador é guiado pelo campo, por Sidra, uma menina síria que vive refugiada na Jordânia. A ONU não divulgou onde será possível acessar o documentário virtual, além de sua sede, em Nova York, mas ele pode ser visto no formato tradicional no endereço http://with.in/watch/clouds-over-sidra/ e no You Tube.

Portal educacional

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A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) lançou um portal educacional com conteúdos de livre acesso para estudantes e professores de todos os níveis educacionais aprimorarem seus conhecimentos. Organizado pelo Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) e universidades parceiras, o portal eduCapes oferece conteúdos como e-books, dissertações, vídeo-aulas, jogos educacionais e outros materiais a partir do assunto que o usuário escolher pesquisar. Acesse (ou compartilhe) o endereço: http://educapes.capes.gov.br/

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Dica cultural



A exposição Castelos de areia é uma boa ideia. Apresentando obras variadas como pinturas, desenhos, fotografias, instalação com esculturas e exibição sonora da artista e crítica de arte Katia Canton, a mostra tem curadoria de Adriana Rede e é baseada no livro O Conto de Fadas Revisitado, também de Katia. Alguns temas remetem à medicina, como “A cura”, onde há pinturas feitas com medicamentos como merthiolate, iodo e violeta genciana. Já o “Casinhas” traz pinturas com imagens de casas, desenho muito usual para a maioria das crianças. A entrada é franca e vai até 4 de dezembro. Endereço: Caixa Cultural São Paulo, Praça da Sé, 111 – Centro, São Paulo, SP.




segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O fim do Botox

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Cientistas criaram um creme que ao ser aplicado cria na usuária, ou usuário, uma nova camada de pele artificial capaz de suavizar rugas e proteger a pele. A película, chamada
de XPL, é resistente à água e pode se conservar intacta por até 24h. A façanha é dos pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e da Universidade de Harvard, em parceria com uma empresa privada. Infelizmente, ainda não há data prevista para que o XPL chegue ao consumidor.

Fonte: Revista Ser Médico - Edição 76
Imagem by Google



quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Jantar no fundo no mar?!




Consegue imaginar um jantar no fundo do mar? O restaurante Ithaa Undersea, nas Ilhas Maldivas, fica a cinco metros de profundidade e tem paredes transparentes que permitem uma visão panorâmica do mar. Por enquanto, apenas 14 pessoas de cada vez podem sentir o privilégio de comer enquanto olham o azul do mar e as centenas de peixes que passam por ali. O restaurante, foi construído com técnicas similares às utilizadas em aquários comuns, levando em conta, claro, aspectos como a pressão e a oscilação da maré.

Imagem by Google


Hemofilia em jogo

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Utilizar brincadeiras e jogos é um recurso que sempre facilita o ensino. Pensando nisso, a psicóloga Frederica Cassis criou um jogo de baralho para auxiliar a educação de crianças e adultos que sofrem com a hemofilia, doença que atinge 20 mil pessoas no Brasil. O baralho auxilia os profissionais  que precisam explicar a pacientes e familiares sobre a doença. As cartas ensinam de maneira lúdica temas complexos como coagulação, inibidores e seus efeitos, ou profilaxia, para que os pacientes entendam o que se passa no próprio organismo e aceitem melhor os tratamentos. O jogo está disponível em hemocentros ou no Centro de Tratamento de Hemofilia (CTH).

Fonte: Revista Ser Médico - Edição 76
Imagem by Google




quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Grupo da USP cria coleção de células-tronco com características genéticas brasileiras



Uma coleção de células-tronco pluripotentes capaz de refletir a mistura genética da população brasileira foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) vinculados ao Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionária (LaNCE).
Resultados da pesquisa, que contou com apoio da FAPESP, foram publicados na revista Scientific Reports, do grupo Nature.
“Além do uso em terapias, essas células-tronco poderão ser úteis no desenvolvimento de novos medicamentos – complementando ou até mesmo substituindo testes em animais e aumentando a segurança dos ensaios em humanos. Também poderão auxiliar no estudo de doenças comuns em nossa população”, disse Lygia da Veiga Pereira, coordenadora do LaNCE, em entrevista à Agência FAPESP.
A equipe de Pereira já vinha cultivando há alguns anos linhagens de células-tronco embrionárias derivadas de embriões congelados durante procedimentos de fertilização in vitro. No entanto, segundo a pesquisadora, análises genômicas revelaram que essas linhagens não eram representativas da população brasileira, pois apresentavam mais de 90% de ancestralidade europeia.
“Esses embriões vinham de clínicas privadas, às quais apenas uma pequena parcela da população tem acesso. Os serviços públicos não congelam os embriões excedentes por uma questão de custo. Decidimos então firmar parceria com o grupo do ELSA-Brasil [Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto]."
Financiado pelos ministérios da Saúde e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, o ELSA é um estudo multicêntrico que vem sendo realizado desde 2008 em seis universidades brasileiras de diferentes estados. Ao todo, são acompanhados 15.105 homens e mulheres entre 35 e 74 anos, sendo 5 mil deles no Hospital Universitário (HU) da USP, sob coordenação de Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina.
Os voluntários passam por exames periódicos com o objetivo de se identificar o risco de doenças cardiovasculares e diabetes. De acordo com Lotufo, no primeiro exame foram colhidas e guardadas amostras biológicas, que posteriormente serviram de base para a criação da nova biblioteca de células-tronco.
Reprogramação celular
A equipe do LaNCE fez uso de uma técnica premiada com o Nobel de Medicina em 2012 e descrita em 2006 por Shinya Yamanaka, da Universidade de Kyoto, no Japão. O método consiste em inserir na célula adulta – nesse caso, células do sangue periférico dos voluntários do ELSA – certas proteínas capazes de reprogramar o genoma celular.
Esses fatores de transcrição, como são conhecidos, ativam genes relacionados ao estágio embrionário da célula e desligam outros genes que deveriam estar ativos após o amadurecimento. São criadas assim células-tronco pluripotentes induzidas (IPS) que podem, com o devido estímulo, se diferenciar nos mais diversos tecidos do corpo humano.
“Criamos uma biblioteca inicial com 23 linhagens celulares apenas como prova de conceito. Mas temos amostras de 1.872 indivíduos e podemos criar novas linhagens de acordo com a demanda da comunidade científica ou de laboratórios farmacêuticos”, afirmou Pereira.
Segundo os dados descritos na Scientific Reports, as células que integram a nova coleção apresentam entre 14,2% e 95% de ancestralidade europeia; entre 1,6% e 55% de ancestralidade africana; e entre 7% e 56% de características indígenas – sendo consideradas representativas da mistura genética que caracteriza a população do país.
Outra grande vantagem da parceria com a equipe do ELSA-Brasil, segundo Pereira, é que as amostras biológicas estão acompanhadas de um vasto banco de dados clínicos, abrindo a possibilidade de aplicação do material em diversos tipos de estudo.
“Posso selecionar no banco de dados do ELSA apenas amostras de voluntários com hipertensão, ou diabetes, ou depressão ou asma e gerar uma coleção de linhagens adequada para cada estudo. Por exemplo: o ELSA nos mostra que a incidência de hipertensão no Brasil é de 30% e que cerca de 10% dos hipertensos não respondem ao tratamento. Mas qual é o mecanismo molecular por trás dessa resistência à terapia? Com essas células-tronco podemos desenhar experimentos para tentar responder a esse tipo de dúvida”, explicou Pereira.
Outra questão importante, na avaliação da pesquisadora, é a resposta variável das pessoas a diferentes medicamentos aprovados, que podem não funcionar ou causar efeitos adversos para vários pacientes.
“Na Inglaterra, um em cada 15 casos de admissões hospitalares deve-se a reações adversas a medicamentos, enquanto nos Estados Unidos 2 milhões de pacientes por ano apresentam reações adversas graves e 100 mil morrem. Sabemos que nossos genes são o fator mais importante para determinar como respondemos a um medicamento. Logo, um fármaco testado na população europeia, por exemplo, pode não ter a mesma resposta na população asiática”, explicou Pereira.
Como é economicamente inviável testar um novo medicamento em vários países antes de ele ser comercializado, acrescentou a pesquisadora, poderiam ser usadas células-tronco com as características genéticas dessas populações – reduzindo custos, aumentando a segurança e acelerando o processo de desenvolvimento de fármacos.
“Por enquanto temos amostras apenas de parte dos voluntários do ELSA acompanhados em São Paulo, mas gostaríamos de expandir para os mais de 15 mil participantes. Essa biblioteca da população brasileira aumenta significativamente a diversidade genética das células-tronco pluripotentes disponíveis no mundo, que são em sua grande maioria de origem europeia e asiática. Nosso objetivo ao publicar esse trabalho é divulgar a disponibilidade dessa coleção de células associadas a dados clínicos para que pesquisadores do mundo todo possam usá-las em seus estudos”, disse Pereira.
O serviço prestado pelo LaNCE não tem fins lucrativos. De acordo com Pereira, o desenvolvimento das linhagens poderia ser realizado por meio de parcerias, sendo cobrado apenas valores necessários para cobrir os custos de operação. Os interessados podem entrar em contato pelo e-mail: lpereira@usp.br.
O laboratório integra a estrutura do Centro de Terapia Celular (CTC), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP. A pesquisa também contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O artigo Increasing The Genetic Admixture of Available Lines of Human Pluripotent Stem Cells (doi: 10.1038/srep34699) pode ser lido em: www.nature.com/articles/srep34699.
Fonte: Agência Fapesp


terça-feira, 25 de outubro de 2016

Realidade virtual na sala de aula




Duas tecnologias da empresa VR Monkey, desenvolvidas com apoio do Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), propõem o uso de realidade virtual para melhorar a experiência de ensino-aprendizagem, tornando-a mais divertida e eficaz para a retenção do conhecimento, além de possibilitar experiências que seriam praticamente impossíveis ou muito caras no mundo real.
Uma das propostas da VR Monkey consiste na criação de um ambiente virtual voltado para ensino de História, também chamado de Arqueologia Virtual, por meio do qual será possível a visitação a lugares da antiguidade. O primeiro produto com esse objetivo – o 7VRWonders – permite conhecer as 7 Maravilhas do Mundo Antigo. Todas foram reconstruídas com recursos de computação gráfica, depois de meses de pesquisa e da consultoria de historiadores, até mesmo as pirâmides de Gizé – a única das sete que ainda se mantém intacta e passível de ser visitada, apesar de ter sofrido alterações na parte externa por ação de saqueadores.
“Assim como excursões são uma forma excelente para aproximar alunos de assuntos tratados em sala de aula, o que nossos sistemas propõem são excursões virtuais. Imagine quantos professores não gostariam que seus alunos pudessem ver as Pirâmides do Egito? Quantos alunos não ficariam mais curiosos sobre o Império Romano ao ver a grandiosidade do Templo de Ártemis?”, disse Pedro Monteiro Kayatt, engenheiro de computação pela Escola Politécnica da USP (Poli-USP) e um dos sócios-fundadores da empresa.
Em agosto deste ano, Kayatt apresentou o sistema em uma feira em São Francisco, Estados Unidos, frequentada por desenvolvedores, entusiastas e pessoas ligadas ao mercado tecnológico. Segundo ele, a receptividade foi muito positiva. “Conseguimos desenvolver ambientes fotorrealistas que geram imagens capazes de reproduzir a escala das 7 Maravilhas. Para recriar o Colosso de Rhodes, por exemplo, utilizamos também um simulador de multidões para gerar movimentos aleatórios de barcos próximos ao porto, além de pessoas caminhando nas muralhas da cidade. Esses recursos ajudam a envolver de forma natural pessoas que ainda não tiveram contato com a tecnologia”, contou Kayatt.
A outra proposta da VR Monkey explora o uso de óculos de realidade virtual e as mais recentes tecnologias para estimular a sensação de imersão visual e sonora. Nessa experiência, os usuários poderão ter contato com a pré-história brasileira.
Uma parceria firmada com o Museu Catavento Cultural e Educacional, em São Paulo, possibilitará aos visitantes conhecer os 15 dinossauros – já criados e em fase de animação – que habitaram regiões hoje ocupadas pelos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Paraíba, Ceará, Maranhão e Minas Gerais, todas recriadas virtualmente da maneira como seriam na pré-história.
Esse trabalho, que deve ser concluído em dezembro deste ano, conta com a consultoria de Luiz Eduardo Anelli, professor de paleontologia do Instituto de Geociências da USP, e do paleoartista Rodolfo Nogueira.
Segundo Keila Keiko Matsumara Kayatt, sócia-fundadora e também engenheira de computação pela Poli-USP, idealizadora do projeto, a ideia de divulgar os dinossauros brasileiros foi inspirada na constatação de que boa parte da população brasileira desconhece a existência desses animais pré-históricos no país e pouco sabe a respeito das inúmeras descobertas realizadas por paleontólogos e paleoartistas brasileiros. “Se você perguntar para alguém o nome de um dinossauro brasileiro, provavelmente irá ficar sem resposta ou ouvirá: ‘Existiam dinossauros no Brasil?’ Isso quando não te responderem: ‘T-rex’”, brincou. O projeto conta com apoio da Intel e da Ambev, por meio da Lei Rouanet. E já tem instituições interessadas em seu licenciamento e no estabelecimento de parceria para levar a experiência a outros estados.
Esses são dois dos produtos de conteúdo de realidade virtual que resultaram de uma mudança relativamente recente no direcionamento do foco de atuação da VR Monkey.
A empresa foi oficialmente criada em 2013 pelo casal Kayatt, com recursos próprios, gerados com o desenvolvimento de games e aplicativos para mobile. Alguns desses aplicativos chegaram a registrar mais de 2 milhões de downloads. Batizada então com o nome de Naked Monkey, a empresa instalou-se no Cietec, a Incubadora de Empresas de Base Tecnológica de São Paulo USP/Ipen, onde permanece até hoje.
Investidores-anjos
Por aproximadamente dois anos, a estratégia foi gerar reservas para enveredar com segurança pelo mercado da realidade virtual que, embora muito promissor, era ainda muito novo. Mirando esse objetivo, atuaram basicamente no atendimento de demandas por criação de aplicativos. Até que, em 2015, receberam um investimento-anjo de dois novos sócios, André Chinchio e Ricardo di Lazzaro, o primeiro graduado em Farmácia e o segundo, em Farmácia e Medicina, ambos pela USP. Em seguida, a sociedade ganhou um quinto integrante, Vinícius Vecchi, matemático do Instituto de Matemática e Estatística da mesma universidade (IME-USP).
Não foi apenas a sociedade que mudou, mas também o nome da empresa – de Naked Monkey para VR Monkey, numa referência à realidade virtual. “Visualizamos a oportunidade de usar essa tecnologia revolucionária para efetivamente melhorar a vida das pessoas, como, por exemplo, na educação”, contou Kayatt.
Os dois projetos apoiados pelo programa PIPE iniciaram em 2015. Segundo os sócios, esse apoio foi fundamental para a criação dos primeiros projetos de propriedade intelectual, permitindo um modelo de negócio de maior amplitude e escala. Kayatt cita projeções da consultoria TrendForce, de que em 2020 o mercado de realidade virtual irá movimentar no mundo US$ 70 bilhões. Hardwares responderão por US$ 20 bilhões e softwares de conteúdo de realidade virtual, como os que a VR Monkey produz, US$ 50 bilhões.
Apostando nesse potencial, a estratégia da empresa para se aproximar de clientes foi criar o evento SPRV, que bimestralmente reúne entusiastas de realidade virtual, além de participar de muitos encontros e palestras relacionados ao tema.
No caso do 7VRWonders, a estratégia de comercialização tem duas frentes: o business to business, com prospecção já iniciada em escolas e museus, e o business to consumer, com usuários que já possuem o óculo de realidade virtual (Oculus Rift ou HTC Vive) e o computador com o programa para utilizá-lo. Para empresas e instituições seria comercializada a licença de uso, e para o usuário individual, a proposta é vender uma cópia digital de utilização pessoal.
Segundo Kayatt, não são necessários grandes investimentos. “Como o sistema 7VRWonders roda tanto num sistema de smartphone como num Samsung GearVR, assim como em um Oculus Rift de alta performance, o custo para escolas e museus interessados pode variar de R$ 2 mil a R$ 10 mil.” “Este é um momento de transição semelhante ao que aconteceu quando as escolas passaram a criar salas de informática, adotar projetores e recursos multimídia em sala de aula. Será necessário auxiliar as instituições interessadas em preparar ambientes para essa nova revolução midiática. O uso da realidade virtual será um novo passo na educação”, disse Kayatt.
VR Monkey
Telefone: (11) 3039-8389


terça-feira, 18 de outubro de 2016

Um só



Vídeo do YouTube
Clarice Falcão - Um só


Estudo sobre relógio biológico pode apontar alvo para a terapia do câncer de pele

Estudo sobre relógio biológico pode apontar alvo para a terapia do câncer de pele



Os melanomas constituem um dos tipos mais agressivos de câncer. Essas células pigmentares transformadas malignamente apresentam maiores respostas à luz visível e ao ultravioleta. Uma pesquisa temática sediada no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) demonstrou que tais alterações se devem a perturbações tanto no sistema receptor de luz dessas células quanto no sistema de controle temporal. A partir desse estudo, é possível cogitar a possibilidade de esses dois sistemas se tornarem atrativos alvos terapêuticos para melanomas.
A pesquisa em pauta é “Mecanismos de ajuste do relógio por luz e temperatura: aspectos filogenéticos”, coordenada por Ana Maria de Lauro Castrucci, professora sênior do IB-USP, e apoiada pela FAPESP. A pesquisa é também desenvolvida no âmbito de dois outros projetos apoiados pela FAPESP: no doutorado direto de Leonardo Vinicius Monteiro de Assis e no pós-doutorado de Maria Nathália Moraes.
À frente de um laboratório que sempre trabalhou com a fisiologia da pigmentação, com enfoque comparativo (invertebrados, vertebrados não mamíferos, vertebrados mamíferos e humanos), Castrucci passou um período sabático na Uniformed Services University of the Health Sciences (USUHS), dos Estados Unidos, onde um grupo trabalhava com uma célula pigmentar de anfíbios diretamente responsiva à luz.
“Eu estava com esse grupo, em Bethesda, Maryland, quando descobrimos que o fotopigmento descoberto em anfíbios também estava presente na retina de camundongos. De lá para cá, incorporei aos meus projetos temáticos a investigação dessas opsinas nos tecidos periféricos de vertebrados, com o objetivo de conhecer sua resposta à luz, à temperatura e aos hormônios”, relatou a pesquisadora.
As respostas não visuais à luz estão associadas à presença de um grupo de proteínas chamadas melanopsinas. Elas receberam esse nome por terem sido descobertas nos melanóforos de anfíbios, e não na retina, como ocorre com outras opsinas. A melanopsina participa de processos como o ajuste do relógio central biológico (localizado no hipotálamo, em mamíferos), que regula todas as funções rítmicas (sono; alimentação; temperatura corpórea; liberação de vários hormônios, como o cortisol).
Graças à presença das melanopsinas, as células da pele de peixes e anfíbios são diretamente responsivas à luz. Nos anfíbios, a resposta pode ser a migração de grânulos de pigmento dentro da célula pigmentar, provocando a mudança de cor da pele, como o escurecimento, por exemplo.
“Em vertebrados não mamíferos, mostramos que os fótons interagem com as melanopsinas e provocam uma sinalização celular. Essa sinalização é uma cascata de eventos semelhante àquela produzida pela luz na retina de mamíferos”, ressaltou a pesquisadora. “Trata-se de uma via conservada evolutivamente. A melanopsina é uma opsina antiga, em termos evolutivos. Ela é mais primitiva na medida em que não forma imagens: é um fotopigmento só para a percepção de claro-escuro. O fato de que a cascata que a luz induz na pele desses não mamíferos seja idêntica à cascata que a luz induz na retina do humano é um achado importante em fisiologia comparativa”, acrescentou.
“Nosso grupo na USP foi o primeiro a demonstrar que as melanopsinas estão presentes também nas células pigmentares de aves e de mamíferos. E que podem ter um papel no ajuste do relógio das células pigmentares de mamíferos em resposta à luz visível, ao infravermelho e ao ultravioleta”, informou Castrucci.
Já que a melanopsina está relacionada com a percepção da luz e o ajuste do relógio biológico central, os pesquisadores se perguntaram se essas células periféricas que respondem à luz não seriam também elas “relógios”. E, assim sendo, como a resposta à luz poderia ajustar sua “maquinaria de relógio”. Em outras palavras, quais seriam as vias de sinalização envolvidas na cascata de eventos desencadeada a partir da impressão das melanopsinas pela luz?
“Desmentimos o paradigma de que os mamíferos só podem perceber luz visível por meio da retina. Mostramos que as células pigmentares, os melanócitos, também podem responder à luz, com o aumento da síntese de melanina e com a modificação dos chamados genes de relógio. E essa resposta é exacerbada no melanócito maligno – ou seja, no melanoma. O fato de o melanoma ser tão sensível à luz e ter seus genes de relógio tão afetados faz com que os mecanismos envolvidos possam ser pensados como alvos terapêuticos contra a progressão desse tipo de câncer”, disse Castrucci à Agência FAPESP.
Outro achado desse projeto é o fato que as respostas induzidas pela radiação UVA, como o aumento do conteúdo de melanina e a ativação de genes de relógio, por exemplo, se perdem quando este estímulo é associado ao calor. Esse é o primeiro relato da interação radiação UVA/calor, o que poderá ser base para uma modalidade de tratamento para pacientes com doenças de despigmentação como, por exemplo, o vitiligo.
No caso específico dos melanomas, o estudo foi conduzido, até agora, em culturas de células. O próximo passo do grupo será pesquisar o processo in vivo com camundongos, comparando, em animais com e sem melanomas, o que acontece com suas maquinarias de relógios periféricos. “Estamos iniciando esta fase e vamos estudar tanto os tumores e tecidos adjacentes quanto outros órgãos, pois sabemos que o câncer exerce um efeito macro em vários tecidos como o fígado, tecido adiposo, tecido adiposo marrom, o qual ainda é pouco compreendido”, adiantou Castrucci.
Esse eventual caminho para a prevenção e o tratamento do câncer e doenças despigmentares confere uma notável perspectiva de aplicação para uma pesquisa de grande porte que se desenvolve no campo da ciência básica.
Fonte: Agência Fapesp

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Unesp desenvolve fármaco para tratamento da doença de Chagas



Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) estão desenvolvendo um novo fármaco para o tratamento da doença de Chagas feito à base da planta medicinal cervejinha-do-campo (Arrabidaea brachypoda), informou a Unesp Agência de Notícias (UnAN).
Parte da pesquisa foi desenvolvida com apoio da FAPESP durante o pós-doutorado de Cláudia Quintino da Rocha, no Instituto de Química da Unesp, em Araraquara, e no laboratório da Universidade de Genebra, na Suíça, com supervisão dos professores Jean-Luc Wolfender e Emerson Queiroz. Na Unesp, a pesquisa teve orientação de Wagner Vilegas, atualmente docente no Instituto de Biociências da Unesp no Litoral Paulista.
Em seu doutorado, Rocha isolou uma molécula inédita da planta presente no cerrado brasileiro e a testou em modelos in vitro e in vivo. A substância apresentou uma alta atividade contra o parasita Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas.
O estudo foi desenvolvido no âmbito do Projeto Temático “Fitoterápicos padronizados como alvo para o tratamento de doenças crônicas”, coordenado por Vilegas (Leia mais em: http://agencia.fapesp.br/ 17244/), e também contou com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
“Ao olhar para essa planta, nas pastagens de Minas Gerais, as pessoas nem imaginam que ela pode ter um grande potencial terapêutico”, ressalta Vilegas, especialista em química de produtos naturais. “Trata-se de uma atividade promissora, mas ainda são necessários mais testes até que se chegue ao uso em humanos. São etapas longas, complicadas, custosas, mas que precisam ser feitas”, avalia.
Um dado importante da pesquisa é que, nas doses testadas até o momento, o composto não apresentou toxicidade significativa. Atualmente, existem no mercado apenas dois medicamentos para tratamento da doença de Chagas: o nifurtmox e o benzonidazol. O primeiro apresenta reduzido poder tripanocida (capacidade de matar o parasita), uma vez que é eliminado rapidamente no plasma e deve ser administrado continuamente. Além disso, apresenta inúmeros efeitos colaterais como náuseas, vômitos, dores estomacais, entre outros. Já o benzonidazol não pode ser usado no tratamento pediátrico e causa fortes reações adversas, semelhantes ao nifurtmox.
Rocha, que hoje é professora da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), contou que os efeitos colaterais desses medicamentos são muito fortes e, por isso, muitos pacientes precisam suspender o tratamento.
“Cerca de 30 % dos infectados que não tratam a doença na fase aguda vão desenvolver os sintomas da fase crônica.” Nesta última etapa, a grande preocupação é a insuficiência cardíaca, que pode causar morte súbita.
Além disso, 40% dos pacientes sentem fortes efeitos colaterais, como dores de cabeça, fadiga, insuficiência renal, diarreia, enjoos e vômitos. “O uso da nova substância poderá tornar o tratamento da doença tão eficaz quanto os que já existem, porém sem efeitos colaterais”, finaliza Rocha.
O passo seguinte será realizar novos ensaios in vivo para atestar a segurança da molécula. Em seguida, pretende-se desenvolver formulações farmacêuticas com o composto. Um pedido de patente foi depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) sobre a descoberta e aplicação da nova molécula.
Vilegas lembrou que as doenças crônicas são responsáveis por cerca de 40% das enfermidades na população adulta brasileira, segundo dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2013.
De acordo com o pesquisador, o Brasil tem uma biodiversidade enorme mas ainda pouco explorada. “Meu objetivo é tentar buscar na natureza alternativas para as doenças crônicas que sejam mais viáveis, menos tóxicas, mais baratas e que estejam à disposição da população”, acrescentou. 
Fonte: Agência Fapesp

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Peixe peçonhento tem molécula com ação potencial contra esclerose

Peixe peçonhento tem molécula com ação potencial contra esclerose



Quando se pensa em um peixe venenoso é comum lembrar da imagem de um baiacu inflado como um balão. No baiacu – designação popular de diversos peixes da ordem dos Tetraodontiformes –, o veneno está na carne. Comer a carne não tratada para a retirada da toxina pode levar à morte.
O baiacu é venenoso, mas não é peçonhento: não tem presas nem espinhos para injetar toxina em suas vítimas e, desse modo, imobilizá-las. O niquim (Thalassophryne nattereri), habitante de águas rasas, tem tudo isso.
O niquim vive na zona de transição entre as águas salgada e doce, escondido no fundo lodoso de rios e lagoas costeiras. Na maré vazante o peixe cor de areia sobrevive enterrado, podendo viver fora d’água por até 18 horas. Quem caminha pela areia rasa no litoral do Norte e Nordeste, estendendo-se até a costa do Espírito Santo, pode inadvertidamente ser picado pelo niquim. Todos os anos há relatos de 50 a 100 acidentes no litoral brasileiro. O número real deve ser maior, pois não há notificação obrigatória e nem tratamento por enquanto.
Em 2008, um grupo de pesquisadores do Laboratório Especial de Toxinologia do Instituto Butantan, em São Paulo, desenvolveu um soro efetivo contra a picada do niquim. Agora, a mesma equipe, liderada pelas imunofarmacologistas Mônica Lopes-Ferreira e Carla Lima, descobriu que as fêmeas do niquim, embora menores, têm toxina mais poderosa que a dos machos.
Os resultados da pesquisa, desenvolvida no âmbito do Centro de Toxinas, Resposta-Imune e Sinalização Celular (CeTICS), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) apoiados pela FAPESP, foi publicado na revista Toxicon.
Em outro estudo, o grupo de pesquisadores já havia observado na peçonha do niquim um peptídeo que mostrou ter ação contra a esclerose múltipla – doença inflamatória autoimune neurológica na qual o sistema imunológico afeta a bainha de mielina que recobre os neurônios, responsável pela condução nervosa.
“Identificamos um peptídio com atividade anti-inflamatória comprovada nos casos de esclerose múltipla. Em camundongos, o peptídeo bloqueia o trânsito e a infiltração de linfócitos patogênicos e macrófagos para o sistema nervoso central, o que favorece o aumento de células reguladoras. Isso resulta na atenuação da neuroinflamação e na prevenção da desmielinização, refletindo no adiamento do aparecimento dos sintomas e na melhoria dos sinais clínicos da doença”, explicou Lima.
O peptídeo, denominado TnP (peptídeo do T. nattereri), foi descoberto em 2007, quando Lopes-Ferreira resolveu pesquisar se o veneno era composto por peptídeos além de proteínas. Simultaneamente, Lima havia padronizado no laboratório testes em murinos (roedores) para avaliação de esclerose múltipla. As duas resolveram testar a eficácia do peptídeo no tratamento da doença.
“Inicialmente, descobrimos a função anti-inflamatória do peptídeo e, mais recentemente, a função imunomoduladora”, disse Lopes-Ferreira. Segundo ela, todos os ensaios científicos para a comprovação da eficácia do peptídeo no tratamento da esclerose múltipla foram feitos no laboratório de toxinologia do Butantan, em parceria com o laboratório Cristália, de Itapira (SP).
As próximas etapas rumo a um medicamento necessitam da continuação da parceria com o laboratório ou com outro que tenha interesse na descoberta e na sua aplicação. Mas os pesquisadores ainda aguardam a aprovação do pedido de patente solicitada ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
“Depositamos, em 2007, o pedido da patente que ainda está pendente de aprovacão. Nesse meio tempo, a patente já foi requerida e aprovada na Comunidade Europeia, nos Estados Unidos, Canadá, México, Japão, Coreia do Sul, Índia e China. Em média, cada processo levou um ano para ser aprovado”, disse Lima.
Fêmeas são mais venenosas
O niquim possui quatro espinhos ligados a uma glândula produtora de toxina poderosa. A maioria dos acidentes com o peixe em humanos ocorre na região palmar e plantar. O veneno provoca dor, edema e necrose de difícil cicatrização, acarretando em perda de função.
“Há relatos de pessoas que choram de dor. O pé ferido quase duplica de tamanho e a dor e o edema podem levar até dois meses para desaparecer”, disse Carla Lima. Esses sintomas são provocados principalmente por proteases encontradas no veneno, chamadas de natterinas.
Segundo Mônica Lopes-Ferreira, inicialmente as natterinas impedem o recrutamento celular – todo processo inflamatório aciona um mecanismo de recrutamento e ativação de células fagocitárias responsáveis pelo controle inicial do agente causador do problema. As proteases do veneno do niquim impedem essa reação natural do organismo.
Além disso, as natterinas provocam estase venular – paralisação do fluxo de sangue pelos vasos – e agem na matriz extracelular, afetando o metabolismo e as trocas e interações entre as células.
Agora se sabe que as fêmeas da espécie são mais venenosas. Os machos da espécie têm em média 22 centímetros de comprimento e 200 gramas. Já as fêmeas são bem menores: 18 centímetros e 120 gramas. No entanto, a concentração de toxina no veneno das fêmeas é diferente, e muito mais necrosante.
Ou seja, os sintomas da picada da fêmea são mais severos e mais prolongados. Mas não fatais. “A glândula que produz o veneno não o faz na quantidade suficiente para ser fatal a um ser humano. Para tanto, a quantidade de toxina teria que ser 20 vezes maior”, disse Lima.
Não existe tratamento farmacológico disponível para uso público contra o veneno do niquim. A composição do veneno dos peixes é muito diferente daqueles das cobras e dos escorpiões. “O veneno do niquim não pertence à família das toxinas clássicas e, portanto, a dor provocada por ele não pode ser tratada com nenhum analgésico clássico”, disse Lima.
Como uma das especialidades do Butantan é a fabricação de soro antiofídico, em 2008 a equipe do Laboratório Especial de Toxinologia extraiu o veneno do niquim e inoculou em cavalos para a produção de anticorpos com os quais foi feito um soro. Em camundongos, o soro antiveneno de T. nattereri produzido em equinos se mostrou eficaz na neutralização da necrose e da dor e parcialmente do edema.
“O fato de inibir a necrose já é muito importante, uma vez que a necrose é um dos maiores transtornos do acidente”, disse Lopes-Ferreira. O soro contra o veneno do niquim ainda não está sendo produzido, aguardando o interesse do Ministério da Saúde em sua produção industrial.
O artigo Analysis of the intersexual variation in Thalassophryne maculosa fish venoms (doi: http://dx.doi.org/10.1016/j.toxicon.2016.02.022), de Mônica Lopes-Ferreira, Ines Sosa-Rosales, Fernanda M. Bruni, Anderson D. Ramos, Fernanda Calheta Vieira Portaro, Katia Conceição e Carla Lima, pode ser adquirido em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0041010116300393
Fonte: Agência Fapesp